29 de março de 2015

O Campeão de Lady Isobel





Durante os longos anos no convento esperando por seu prometido, lady Isobel de Turenne transformou o Conde D‘ Aveyron em uma fantasia, o homem que iria resgatá-la, protegê-la e amá-la. 

Mas quando finalmente retorna para buscar sua noiva, Isobel percebe que ele é uma pessoa de contradições, e que esconde seus desejos mais obscuros. 
Assustada por ter vivido tantos anos reclusa, mas desesperada para usufruir de sua liberdade, Isobel deve descobrir se é somente o dever que prende o conde a este casamento, ou se ele é realmente o marido de seus sonhos.

Capítulo Um

Outubro de 1173
Torre leste de Ravenshold — Condado de Champagne
Com a ponta da adaga, Lucien Vernon, conde d’Aveyron, cutucou o que suspeitou ser um pardal morto.
— Isso é o que estou pensando? — perguntou ele, inspecionando a mesa suja de restos.
Havia uma porção de ossinhos, várias asas de borboleta num pote de barro e em outro havia uma casca de árvore retorcida que Lucien achou que não veria em nenhuma outra cozinha ou enfermaria. O pilão estava lascado e mal se podia ver a superfície da mesa de tão repleta de insetos mortos, cabos de folhas, castanhas e frutos de carvalho.
— Seria um morcego seco? — sugeriu o amigo, sir Raoul de Courtney. — Ou talvez um sapo?
Ele estava examinando um jarro de vidro repleto de um líquido turvo com uma expressão de curiosidade no rosto que beirava o nojo. A luz do dia se esgueirava pela janela adornada por teias de aranha.
— Mon Dieu! — exclamou Raoul, examinando o líquido na luz e logo em seguida batendo o vidro na mesa, levantando uma nuvem de poeira. Curvou os lábios para baixo, evidenciando que o nojo tinha vencido a curiosidade.
— Deus do céu, Luc, você já não viu o suficiente? Vamos sair daqui.
Lucien passou a mão no rosto, tocando levemente a cicatriz áspera na têmpora esquerda com os dedos. A cicatriz vinha latejando desde que soubera da morte prematura de Morwenna e sempre que pensava nela.
— Desculpe-me, Raoul, pensei que poderia encontrar alguma coisa aqui, ou uma explicação da razão da morte de Morwenna. Eu contei a você que tive de subornar o padre Thomas para obter permissão para enterrá-la no cemitério?
Raoul meneou a cabeça, entendendo a dor do amigo.
— Ouvi alguns rumores de que estavam praticando bruxaria. Você imagina quem começou com isso dessa vez?
— Não. Eu esperava encontrar respostas aqui, mas... — Lucien balançou a cabeça, invadido por uma onda de arrependimento.
Se ao menos tudo tivesse sido diferente. Ele não via Morwenna havia pouco mais de dois anos. E agora ela havia partido. A culpa apertou-lhe o coração e o arrependimento deixara um gosto amargo na boca.
— Apesar de tudo o que você está vendo aqui, ela não era uma bruxa — disse ele, inclinando a cabeça na direção da mesa.
— Eu sei que não.
— Ela era apenas... obcecada. — Lucien respirou fundo. Aquele lugar rescendia a mofo. Cheirava a morte. Era como se o tempo tivesse parado na torre leste e tudo tivesse congelado a ponto de se dissolver. — Morwenna não estava tão obcecada no começo.
— Ela era bonita nessa época?
— Uma deusa. Ah, Raoul, se você a tivesse visto antes do nosso casamento...
— Sei que você não se envolve com bruxaria, Luc, mas fico impressionado como ela o enfeitiçou.
— Eu tinha 15 anos. — Lucien riu e encarou o jarro de vidro sobre a mesa. — Muitos jovens ficam enfeitiçados com essa idade. Se bem me lembro, você mesmo.
— Já entendi — Raoul o interrompeu, levantando a mão. — Não precisa trazer meu passado à tona. — Ele olhou para um punhado de nozes mofadas e deu de ombros. — Por Deus, você não vai descobrir nada aqui. Eu o aconselho a queimar tudo o que há nesta sala. Não seria bom que lady Isobel visse.
— Não há pressa — disse Lucien. — Lady Isobel só chega daqui a um mês.
— Ah, Luc... sobre isso.

Série Cavaleiros de Champagne
1- O Campeão De Lady Isobel
2- Os Segredos Dos Olhos De Lady - em revisão
3- The Knights of Champagne - não foi publicado no Brasil

Estigma do passado


Celeste e o conde entraram no esconderijo e a porta se fechou. Estranhas vibrações começaram a afetá-los tanto física quanto mentalmente. 

Lembrando-se do que acontecera à sua mãe, a jovem estremeceu.
Tinha horror de pensar num contato mais íntimo com um homem. 
Tinha horror ao amor por ser um sentimento incontrolável, um sentimento que fazia uma mulher perder a noção de decência. 
Por amor, sua mãe jogara fora todo um passado, o marido, os filhos! Celeste tinha de fugir, não podia se deixar dominar por esse homem perturbador. E foi aí, então, que o jovem conde a beijou e seus lábios sensuais a mantiveram cativa...

nota da autora : É autêntica a descrição do Rei George IV, de suas vestes e do banquete, feita neste livro. A Rainha Caroline faleceu a 8 de agosto, exatamente vinte e um dias após ter sido impedida de entrar na Abadia de Westminster.

Capítulo Um

Londres, 1821
Cantarolando baixinho, Celeste recolhia os últimos pêssegos da estação, armazenados no depósito erguido no pomar-, e encostado no muro elisabetano de tijolos vermelhos.
Um raio de sol, que entrava por uma fresta do cômodo mal conservado, tornava-lhe os cabelos refulgentes como ouro.
Os pêssegos, embora muito doces, estavam pequenos aquele ano, uma vez que os pessegueiros não haviam sido desbastados na primavera.
Saudosa, Celeste pareceu ter à sua frente a cena que se repetia invariavelmente, todos os anos, enquanto a mãe estivera com eles: o pai, pegando um dos pêssegos róseos do prato de porcelana de Sèvres, usada diariamente pela família, removia a casca aveludada da fruta com a faca de sobremesa, de ouro, e perguntava:
— Certamente todos os pêssegos bem graúdos foram reservados para a exposição, não é mesmo?
— É claro que sim! — Era a resposta da esposa sentada à outra extremidade da mesa. — Você sabe que o velho Bloss ficaria decepcionado se não ganhasse um premio!
Com um ligeiro estremecimento Celeste recompôs-se e afastou tais lembranças. Foi recolhendo os pêssegos e colocando-os na cesta, enquanto imaginava a quem faria presente dos mesmos.
A velha sra. Oakes, atacada de artrite e com setenta e oito anos, ficaria encantada com cerca de meia dúzia das frutas; o pequeno Billy Ives que havia quebrado a perna teria outro tanto; a velha esposa de Bloss, agora morando numa casinha ao fim da vila, exultaria não apenas com o presente, mas também com os dois dedos de conversa que teria com alguém, pois vivia muito só depois da morte do marido.
Ainda haveria muitos pêssegos para ela e Naná se fartarem; os que sobrassem se transformariam em geléia, a especialidade de Nana, mesmo havendo na despensa alguns potes de geleia da colheita anterior. Seria uma pena deixar as frutas se perderem.
Ao estender a mão para pegar um dos três últimos pêssegos da, prateleira, Celeste ouviu uma voz profunda atrás de si, vinda da entrada do depósito:
— Uma linda ladra, mas por certo uma ladra!
Quase morrendo de susto, ela virou-se e deparou com o cavalheiro mais elegante que já vira na vida! Trajava-se no rigor da moda, trazia a larga gravata bem alta no pescoço, o fraque tinha corte impecável e o mesmo se podia dizer da calça justa, cor de champanhe. Ele pareceu tão alto e dominador que o cômodo de teto baixo ficou pequeno demais para um homem como aquele estranho.









Aviso Biblioteca

Atenção!!! 

A Biblioteca não mais será pública, iremos criar um grupo fechado, isto é: estamos estudando a melhor maneira de todos participarem tendo acesso à Biblioteca. É uma medida infelizmente que não nos agrada "mais trabalho para manter o blog". 
Sendo assim, será enviado um convite à todos e-mails que temos aqui gravados na configuração "à todos que seguem o blog".  
Mas preste atenção: nada de pressa... isso aqui é lazer gente!!! Tão logo abrirmos o grupo voltaremos ao assunto. E por gentileza "NÃO escrevam no Contato sobre este assunto" irá lotar a caixa e não responderei, iremos deixar todos informados. 

bjs e boa leitura!

Noites de bailarina









Sozinha, sem meios para viver decentemente, Fiona foi trabalhar como bailarina num dos night-clubs mais chiques da cidade. 

Devia dançar com homens desacompanhados, carentes de amor e amizade. 
Uma noite, um desconhecido jovem e belo apareceu... Começaram a dançar abraçados, muito juntos. E ele a beijou, numa carícia doce, apaixonada. 
Cativa nos braços fortes que a cingiam, sentia-se embalada pela música, conhecendo emoções nunca antes experimentadas, sequer imaginadas! 
Neste momento, Fiona não se lembrava que era apenas uma dançarina de aluguel.

Capítulo Um

Lonfres, 1929
O motorista mantinha o capo do Rolls-Royce levantado e o motor funcionando, enquanto limpava o carro, assobiando a nova canção que nas últimas semanas tornara-se o maior sucesso em Londres.
Algumas crianças brincavam no pátio pavimentado com pedras arredondadas, à frente da garagem, tomando o sol da manhã.
Fiona revirou-se na cama estreita e finalmente acordou. Ficou deitada por uns minutos tentando voltar aos sonhos, mas gradativamente ganhou consciência da algazarra sob sua janela.
"Que barulho!", pensou, irritada, desejando poder encontrar um quarto barato como aquele, porém mais silencioso.
O pequeno cômodo que ocupava, com espaço suficiente apenas para a estreita cama de ferro, uma cômoda e o lavatório, só lhe era conveniente pelo baixo aluguel pago à esposa do motorista: dez xelins por semana.
Até a véspera esse era o aluguel máximo que podia pagar, porém na noite anterior começara num novo emprego com o magnífico salário de trinta xelins por semana.
Pensando no novo trabalho, teve de reconhecer que sua estreia fora um tanto penosa. Ao voltar para casa há menos de cinco horas, tinha os olhos ardendo por causa da atmosfera esfumaçada, as pernas doídas e os pés machucados devido aos sapatos novos comprados para a ocasião.
Apesar de tudo, sentia-se feliz e orgulhosa de ter sido a escolhida para a vaga, entre tantas candidatas, todas elas com a ansiedade no olhar, necessitadas que estavam de um emprego que as salvasse da penúria.
A vaga era de dançarina, ou "dance-hostess", no mais elegante restaurante do West End, o Paglioni, frequentado pela alta sociedade e pelos jovens da realeza.
Paglioni empregava duas dançarinas e um dançarino, ou "dancehost".
O trabalho dos três era estimular os presentes a dançar, desde os primeiros acordes da orquestra, até o fim da noite.
Os três dançarinos sentavam-se a uma mesa e qualquer cavalheiro que desejasse um par para a dança podia ser apresentado a uma das "dance-hostesses". O dançarino em geral apresentava-se às senhoras mais velhas, cujos maridos, ou devido à idade ou à apatia, não se entusiasmavam para aprender os passos dos novos ritmos, tirava-as para dançar.
O ambiente era respeitoso e exigia-se que o cavalheiro interessado em dançar com uma "dance-hostess" lhe fosse apresentado por Paglioni ou pelo "dance-host".
Na maioria dos restaurantes o salário dos dançarinos era de apenas dez xelins por semana e esses profissionais recebiam gorjetas de seus pares. Mas Paglioni teve a ideia de atrair mais clientes para seu restaurante cobrando apenas a refeição e as bebidas sem haver pagamento extra pela dança.









Renúncia



Enquanto seguia Beryl pela nave da igreja, segurando a cauda do vestido de noiva da prima, Torilla tinha a impressão de que ia morrer. 

No altar, Gallen esperava, mais bonito e elegante do que nunca. 
Torilla sentia uma vontade louca de correr para ele e dizer que estava disposta a fugir para bem longe dali, até o fim do mundo... se ele ainda a quisesse. Mas não podia roubar o noivo de Beryl. 
Não era capaz de ser feliz causando a desgraça da prima. Por isso, continuou andando atrás daquela que seria a esposa do homem que adorava. Ia como uma sonâmbula, rezando para que algum milagre acontecesse...

Capítulo Um

1816
A marquesa de Havingham disse, pegando num cálice de Madeira:
— Os médicos proibiram-me de beber álcool, mas tenho de festejar a tua chegada, querido.
— Sente algumas melhoras, mãe?
O marquês, ao fazer a pergunta, demonstrou uma ansiedade na voz, que não passou desapercebida aos ouvidos da mãe.
Ela habituara-se já a ouvi-lo falar num tom preguiçoso e arrastado, muito em voga entre os fidalgos e elegantes que rodeavam o Príncipe Regente.
Ela detestava, embora não o dissesse por prudência, a maneira de arrastar as palavras e de olhar o mundo por debaixo das pálpebras descaídas e arrogantes.
— Acho que a água, apesar de ser horrível, já me aliviou um pouco as dores — respondeu — mas acho Harrowgate aborrecidíssimo e, francamente, estou ansiosa por voltar para casa.
— Nesse caso, eu trago-lhe uma boa desculpa para se ir embora — disse o marquês.
A mãe olhou-o admirada enquanto ele, levantando-se da cadeira onde estava sentado, se ia colocar de pé, de costas para o fogão.
Os aposentos ocupados pela marquesa, no melhor e mais caro hotel de Harrowgate, eram muito agradáveis e o marquês reparou que a mãe tinha modificado o ambiente um tanto austero com alguns pormenores muito pessoais.
Havia um retrato dele, feito a óleo, uma miniatura sobre uma das mesas de cabeceira e muitos vasos com plantas de estufa — quase não conseguia imaginar a mãe sem as plantas.
Havia ainda almofadas macias, pousadas sobre sombrias cadeiras forradas de damasco e, mais importante ainda, lá estavam os pequenos cocker spaniel que o tinham recebido efusivamente à chegada.
— Isto está muito confortável — disse, lembrando-se, de repente, de que até um hotel pode ter as suas vantagens.
— Bastante — respondeu a marquesa. — Agora, Gallen, diz-me o que tens para me dizer; tenho a certeza, querido, que não fizeste esta longa viagem só para ver se estou bem instalada.
Ao falar, a marquesa envolvia o filho num olhar de admiração.Não havia nenhum outro, pensou, tão bem parecido, tão requintado no vestir e, ao mesmo tempo, tão marcadamente másculo.
Os fatos acentuavam-lhe os ombros largos e as ancas estreitas, mas, a verdade era que, por ser tão atlético, fazia o desespero dos alfaiates. Não estava muito em moda ter músculos tão fortes e flexíveis sob finíssimos casacos de bom corte.
O marquês era conhecido como excelente pugilista no Club Gentleman Jackson, em Bond Street, e era com dificuldade que encontrava alguém à sua altura no florete.









A Espiã de Staverly



Madrugada...Os candelabros em que ainda ardiam algumas velas lançavam sombras sinistras nos corredores silenciosos de Staverly. Nervosa, Otila ouviu um ruído do outro lado da porta e, rápida, ocultou-se atrás das cortinas. Se fosse encontrada descobririam que era uma espiã. 

Para sua surpresa, entram no aposento dois malfeitores subjugando seu patrão, Clint Wickham, o milionário americano. 
Pretendiam matá-lo ali mesmo! Sem pensar nos riscos que corria, Otila empunhou um revólver e atirou... 

Capítulo Um 

1882 
Tila olhou ao redor da sala de visitas e constatou que o papel de parede estava descascando num dos cantos. Uma mancha de umidade no teto, que não existia antes, fez com que Tila suspirasse de desgosto. Não havia chances de se restaurar o teto da sala, que como os outros iria se deteriorar aos poucos, até desmoronar. Tila sentia-se deprimida ao pensar nas condições da casa em que vivia. Caminhou até a janela e olhou para o maltratado jardim. 
 O único consolo eram os frondosos carvalhos do parque que nunca haviam apresentado tanta beleza! Narcisos, em grande profusão, espalhavam-se como um tapete de ouro debaixo das grandes árvores. A primavera costumava trazer sempre muita esperança ao coração de Tila, mas, a cada ano, a situação parecia piorar. Ela se questionara desesperadamente na noite anterior sobre como sobreviveriam. Não era só por ela, mas por Roby e os dois velhos criados que ainda persistiam na casa. 
 O casal Coblin vivia em Staverly Park há quarenta anos. Ambos haviam iniciado suas atividades, ele como auxiliar e ela como leiteira na cozinha. Ao longo dos anos a sra. Coblin se tornou cozinheira dos pais de Tila e o sr. Coblin, o mordomo, que tinha três lacaios sob sua supervisão. A sra. Coblin tinha sob suas ordens três criadas que a auxiliavam na cozinha e duas na lavanderia. "Os anos dourados." Quantas vezes Tila ouvira esta frase e pelo que sabia os anos realmente tinham sido promissores. 
 Tila se lembrou de quando era criança. A casa era adorável e muito bem cuidada pela mãe. As carruagens, puxadas por cavalos fortes e de boa raça, ficavam à disposição na porta da frente. Os convidados eram sempre pessoas adornadas de jóias que brilhavam ao sol e suas roupas estavam na última moda. Para Tila, que espiava da balaustrada, aquelas pessoas pareciam ter saído de um conto de fadas. 
 A mãe, usando a tiara dos Staverly, sem dúvida parecia uma rainha. Tila não suportava estas recordações agora. Apesar da tiara permanecer na casa, a maior parte dos objetos de valor tinham sido vendidos. Tudo que restava eram os quadros dos ancestrais de Tila, resultado de herança da família. Os gabinetes de prata, a magnífica coleção de armaduras, e também as coleções de livros da biblioteca só permaneciam ali pela mesma condição de herança. 
— E qual será a importância desses objetos para o filho que jamais terei condições de sustentar — fora a pergunta furiosa de Roby na última vez que a visitara. Ele vivia em Londres a fim de gozar da companhia dos amigos e de se divertir, mas para isso não tinha dinheiro. As anfitriãs adoravam convidar um barão bem-apessoado e descomprometido para suas festas. Mas a mesma disposição de espírito não se aplicaria a uma moça que não podia nem mesmo se sustentar. Por esta razão, Tila resolveu ficar no campo. 
Na ocasião não se importou com o fato, pois ainda tinha seu cavalo para cavalgar. Mas agora, sem dinheiro suficiente nem para comprar alimentos, Tila começava a ficar desesperada. Sabia que era perda de tempo pedir ajuda a Roby. Ela tinha certeza, apesar do irmão não querer admitir, que ele se encontrava em débito até mesmo com o alfaiate. Nem Roby, nem Tila podiam recorrer à ajuda dos parentes, pois ou já estavam mortos ou se encontravam em situação igual à deles.



Casamento em Nova York








Herdeira da maior fortuna dos Estados Unidos, Virgínia tinha tudo para ser uma das moças mais invejadas do mundo. Por ser feia e gorda, porém, era desdenhada por todos. 

Sua mãe, dama esnobe e autoritária, não lhe dedicava amor nem carinho. 
A rica senhora, desejosa de um título de nobreza, para se impor ainda mais às amigas, chegou ao cúmulo de "vender" a filha a um duque inglês, dando-lhe em troca um dote de sete milhões de dólares. Virgínia foi obrigada, então, a casar-se com um homem desprezível, ambicioso e falido!

Capítulo Um

1902
— Não vou me casar com um homem que nem conheço, mamãe! Não vou, não vou, não vou! Não pode me obrigar!
— Virgínia Stuyvesant Clay, você vai fazer o que eu mandar! — replicou uma voz áspera.
A sra. Clay levantou-se com impaciência, andou pela enorme sala decorada com exagero, e encarou a filha.
— Sabe o que está dizendo, menina? Recusa casar-se com um inglês que muito breve será duque! Um duque! Ouviu bem? Há apenas vinte e seis duques na Inglaterra, e você será duquesa. Isso dará uma lição à sra. Astor que me olha por baixo, como se eu fosse uma "ninguém". O dia que eu vir você saindo da igreja como futura duquesa acho que vou morrer de alegria!
— Mas, mamãe, ele nem me conhece! — queixou-se Virgínia.
— Que tem isso a ver com o caso? Estamos em 1902, é verdade, no começo de um novo século, mas na Europa casamentos ainda são arranjados pelos pais dos noivos, e dão certo.
— Você sabe, mamãe, que o marquês quer se casar comigo por dinheiro, nada mais.
— Que modo ridículo de falar, Virgínia — respondeu a mãe.
— A duquesa é velha amiga minha. Há mais ou menos dez anos seu pai e eu a conhecemos numa viagem à Europa, e ela amavelmente nos convidou para um baile em seu castelo.
— E vocês pagaram a entrada — interrompeu-a Virgínia.
— Isso não vem ao caso. Foi um baile de caridade, e nunca escondi. Continuei ajudando-a em suas obras sociais e ela sempre se mostrou muito grata a mim.
— Gosta de seu dinheiro, mamãe!
— Mantemos correspondência regularmente, mando-lhe presentes pelo Natal e ela agradece. Escreveu-me perguntando se eu tinha uma filha na idade de casar. Então, senti-me recompensada pelos milhares de dólares que lhe tenho enviado ano após ano. Agora começam a ser pagos os dividendos.
— Mas eu não desejo ser esses dividendos, mamãe. E, embora a duquesa seja encantadora, você nem conhece o filho dela.
— Vi fotografias e me parece um rapaz muito simpático. Não é um menino, fez vinte e oito anos já. Um homem, Virgínia. Um homem para cuidar de você e de toda essa incalculável fortuna que seu pai lhe deixou.
— Oh, mamãe, vamos entrar nesse assunto outra vez? Você é rica, muito rica, e a razão de papai ter deixado seu dinheiro dividido igualmente entre nós duas não importa.
Quanto a mim, pode ficar com tudo. Aí, só quero ver se esse marquês ainda vai se interessar por mim.
— Virgínia, você é a criatura mais ingrata do mundo! Tem a oportunidade de realizar o sonho de todas as moças, casando-se com um dos homens mais importantes da Inglaterra; na verdade, do mundo! Pode imaginar o que suas amigas dirão? Pense em Millie, em Nancy, em Gloriana. Vão ficar verdes de inveja! Você será convidada para ir ao Buckingham Palace, jantará com o novo rei e a rainha. Usará uma coroa na cabeça.
— Uma tiara, mamãe!




17 de março de 2015

Filhos de Outra Terra



A Inglaterra explora as colônias americanas com impostos opressivos, para manter sua guerra com a França. 

Chester Clayton, de pai americano e mãe inglesa, irá juntar-se aos rebeldes para defender seu país da tirania britânica e acaba prisioneiro em uma fazenda na Virginia. 
Terry Darnell, sobrinha dos Rains, os proprietários da fazenda Ireland, vive com eles desde que ficou órfã. 
O encontro entre os dois desencadeará paixões e ódios, mas Chester não consegue evitar de se sentir atraído pela mulher que o irrita e seduz, ao mesmo tempo. 
Uma reviravolta inesperada faz dele o capitão do exército colonial e é forçado a salvar as vidas daqueles que o mantiveram como escravo. Clayton consegue que toda a família fuja para a Inglaterra. Mas não está disposto a deixar que Terry fuja com eles. 
Tem outros planos para sua inglesa indomável. 

Capítulo Um

1774, Rhode Island 
Ele observou Yorktown através da neblina leve que cobria o mar nessas primeiras horas da madrugada. Os marinheiros do Embers estavam ocupados arrebanhando velas e percorrendo o convés molhado sob os olhos febris do seu mestre, sem se preocupar se o prisioneiro estava vivo ou morto. Na verdade, davam pouca ou nenhuma atenção se todos nós viveríamos ou morreríamos. 
A existência de um prisioneiro condenado à prisão perpétua não valia nada para aqueles homens, acostumados a lutar, constantemente, em seus porões, com os presidiários. No entanto, Chester ainda estava vivo. Apesar de tudo, respirava, e era a dor que o mantinha acordado. 
A dor e o vento frio que descia sobre seu corpo dilacerado. Tinham se passado horas desde que teve os braços pendurados no mastro, e seu próprio peso, apenas tocando o convés sujo, ameaçava desmembrá-lo. 
No início, a dor era insuportável e sob o impacto do navio, que travava uma luta contra um mar em fúria, teve que morder o lábio para aliviar a dor. Em seguida, uma vez que a angústia enlouquecedora se transformou em uma picada maçante, acabou por entorpecer suas articulações. 
Tentou não pensar, esquecer sua escravização e os fatos que o levaram a tal humilhante situação. Mas todas as suas memórias convergiram a cinco de março, em Boston... 
Boston. 1770. 
Quatro anos antes Dick Robertson entrou como um furacão no quarto que ocupava havia dois meses com seu amigo. Chegou afobado e alegre. Chester olhou para os esboços que estudava e que, desordenadamente, cobriam sua pequena mesa de trabalho em um canto da sala. 
Um dia atrás, discutiu com seu professor e estava disposto a mostrar-lhe que era capaz de pôr fim a esses planos no prazo de quarenta e oito horas. As dependências da Universidade de Harvard, construída por volta de 1636, garantia-lhes uma acomodação confortável para os estudos. Mas tanto ele como Dick preferiram alugar este quarto e dormir fora dos muros de Harvard. 
Não foi uma decisão fácil por causa da oposição por parte do conselho da Universidade e suas próprias famílias, que quase os fez desistirem. E talvez fosse sua teimosia, o que levou Dick à morte naquele dia triste e cinza no mês de março.
- Levanta sua bunda, Chester! - Ele pediu. -O povo está fazendo manifestações nas ruas! Chester se remexeu na cadeira. Tinham esperado essa reação durante muito tempo. Em 1765, quando eram apenas crianças, encenaram sua primeira fuga de casa. Eles concordaram em se juntar a um punhado de homens que decidiram protestar contra o governo britânico. 
Os custos da guerra que a Inglaterra travava com a França levaram-nos a criar uma nova taxa: o imposto sobre o selo. 


16 de março de 2015

Magnólia





A Atlanta do inicio do século XX era uma cidade de contrastes, um ramo de atividades onde o comércio e a alta sociedade floresciam entre os fracos ritmos sulinos. 

Claire Lang adorava viver ali, mas a presença de um homem a perturbava no fundo da alma. Ela não estava disposta a admitir o quanto a cativava os olhos escuros e o belo rosto de 
John Hawthorn, mas o desespero causado por uma súbita tragédia a levou a casar-se com ele apesar de saber que o amor que lhe tinha não era recíproco.
Enquanto a brisa deixava em seu rastro o perfume das magnólias, Claire começava a despertar desejos inesperados e indescritíveis em seu marido... Depois de saborear seus beijos e suas carícias, teve a valentia de lutar por ele quando se abateu sobre eles um escândalo, um escândalo tão grande que poderia acabar com seu grande amor.

Capítulo Um

1900
As ruas de Atlanta estavam cheias de lama depois das chuvas recentes, e os pobres cavalos pareciam apáticos puxando com esforço as carruagens por Peachtree Street. Claire Lang desejou ter dinheiro suficiente para retornar em um veículo de aluguel para casa que estava a uns oito quilômetros dali.
Sua carruagem tinha quebrado um eixo ao se chocar contra uma rocha, de modo que as preocupações financeiras que tinham sido traumáticas por meses tinham aumentado ainda mais. 
Seu tio, Will Lang, estava tão ansioso para ter em suas mãos a pequena peça de seu automóvel que tinha encomendado em Detroit que ela tinha ido pegar na estação ferroviária de Atlanta na carruagem. 
O veículo estava velho e em mal estado, mas em vez de se concentrar no caminho resolveu olhar a chegada prematura do outono na preciosa imagem que criavam os pinheiros e as árvores.
Teria que inventar alguma coisa para chegar à loja de roupas de seu amigo Kenny e ver se ele teria como levá-la a casa de seu tio, que ficava em Colbyville. Baixou o olhar, e soltou um suspiro ao ver suas botas de cano longo, enlameadas e a barra de sua saia toda suja. 
Acabava de estrear aquele vestido azul marinho com corpo e pescoço de renda, e embora a capa e o guarda-chuva a tivesse protegido da chuva e o chapéu tivesse resguardado seu cabelo castanho, não conseguiu salvar a saia por mais que a levantasse.
Era muito fácil imaginar o que Gertie diria sobre isso, na verdade ela sempre estava toda bagunçada ao fim do dia, passava grande parte do tempo no galpão de seu tio, ajudando ele a manter em bom estado seu novo automóvel. 
Nenhum outro habitante de Colbyville tinha um daqueles exóticos inventos novos; de fato, só umas poucas pessoas em todo o país possuíam um automóvel, e a maioria eram elétricos ou com motores a vapor. 
O do tio Will estava propulsado com gasolina, e por sorte a gasolina era vendida nas lojas da região.
Os automóveis eram tão escassos, que quando passava um pela rua, às pessoas saiam para vê-lo. Eram objetos de fascínio e de medo, porque o forte ruído que geravam assustava aos cavalos. 
A grande maioria pensava que era uma moda passageira que não demoraria a desaparecer, mas ela estava convencida de que era o meio de transporte do futuro e adorava ser a mecânica de seu tio.
Ela sorriu ao pensar o quão sortuda tinha sido desde que foi viver com ele. Era filha única, e depois do falecimento de seus pais causado pela cólera há dez anos, a única família que tinha restado em todo mundo era seu tio Will. Estava solteiro, e para cuidar da enorme casa onde vivia contava com a única ajuda de empregados formada por Gertie, sua governanta, e Harry, um trabalhador que se encarregava da manutenção geral.
Ela também tinha começado a cozinhar e a encarregar-se das tarefas domésticas à medida que ia crescendo, mas o que mais gostava era de ajudar seu tio com o automóvel. Era um Oldsmobile Curved Dash, e só de olhar para ele sua pele arrepiava. Tio Will o tinha encomendado em Michigan no final do ano passado, e o tinham enviado a Colbyville pela ferrovia assim que ficou pronto. 
Como a maioria dos carros, às vezes balançava, soltava fumaça e estralava, e como os caminhos de terra dos arredores de Colbyville eram bastante irregulares e estavam cheios de enormes buracos, seus pneus de borracha fina estouravam em uma ou outra ocasião.
Os moradores rezavam para livrar-se do que para eles era um invento do diabo, e os cavalos punham-se a correr campo afora como se os fantasmas o perseguissem. 
O conselho local tinha ido ver seu tio no dia seguinte à chegada do automóvel, ele tinha sorrido com paciência e tinha prometido que o pequeno e elegante veículo não atrapalharia a circulação dos carros e as carruagens.
Tio Will adorava aquele novo brinquedo que lhe tinha deixado um pouco menos que em ruínas, e lhe dedicava todo seu tempo livre. Ela compartilhava sua fascinação, e quando ele tinha deixado-a trabalhar na garagem, foi aprendendo pouco a pouco sobre carburadores, alavancas de direção, rolamentos, velas, e pinhões de engrenagem.
A essas alturas já sabia quase tanto quanto ele, tinha mãos finas e ágeis e não tinha medo das «chicotadas» que recebia de vez em quando ao tocar a parte errada do pequeno motor de combustão. A única coisa ruim era a graxa. Tinha que manter engordurados os rolamentos para que funcionassem bem, e tudo acabava manchado… inclusive ela.
Uma carruagem apareceu nesse momento no caminho e foi aproximando-se, mas justo quando estava chegando perto passou por cima de um atoleiro e lhe salpicou a saia de lama. Ela soltou um gemido, e o desânimo que apareceu em seu rosto bastou para que o ocupante do veículo decidisse parar.
A porta se abriu, e uns olhos escuros e penetrantes a olharam cheios de impaciência.
–Pelo amor de Deus!

Anjo entre Demônios




Charisa estava morando na abadia de Mawdelyn, lugar aprazível, considerado sagrado por ter sido construído por monges medievais. 

Mas, desde que morrera seu titular por muitas gerações, o marquês de Mawde, sua sucessão desencadeou estranhos acontecimentos. 
Vincent, herdeiro do título e amor secreto de Charisa, foi preso na masmorra da mansão! 
Charisa iria ter sua fé colocada à prova para salvar Vincent, vítima de rituais satânicos praticados por adoradores do Príncipe das Trevas!

Capítulo Um

1893
Vincent Mawde deu um suspiro de alívio quando encontrou um local para passar a noite.
Desmontou e colocou seu cavalo sob uma árvore.
O animal, devido ao cansaço, já não podia mais prosseguir.
Procurou um local arenoso onde pudesse dormir sem as inconvenientes pedras debaixo do cobertor, como acontecera na noite anterior.
Ele possuía uma barraca, se é que essa era a palavra certa para aquela porção de lona que o protegia das mordidas dos mosquitos e de outros insetos muito comuns naquele ponto da Índia.
No momento, sentia-se imensamente cansado.
Mesmo assim desejava ainda se alimentar da parca refeição que trouxera e também tomar um drinque. E foi o que fez. Levando consigo as duas garrafas de cerveja indiana que sobraram, ele caminhou para perto de algumas árvores. Colocou-as no fio de água de um riacho que passava, o que as manteria frescas até a manhã seguinte.
Quando retornou, o sol já descambava para o lado do poente. Não demoraria muito e logo a escuridão pairaria sobre tudo. No entanto, a luz do luar e das estrelas a abrandariam.  Ele montou a barraca e em seu interior dispôs um cobertor grosso. Certamente não precisaria se cobrir.
Já tinha despido todas as roupas que vestira durante o dia, roupas essas que só usavam os viajantes hindus de baixa casta.
Era um disfarce que ele usava. Raramente quando viajava Vincent Mawde assumia sua própria personalidade.  Pelo menos agora estava a caminho da civilização. E graças aos céus, tendo completado a missão para a qual fora designado, ele ainda se encontrava sozinho.
Estava prestes a entrar na barraca quando ouviu o som de galope se aproximando. Ficou alerta, temendo que pudesse ser outro inimigo. Conseguira escapar de um bom número deles.
Então, à medida que o som se aproximava da barraca, pôde ver o uniforme que ele usava. Vincent deu um grito de prazer!
Levantando as duas mãos num gesto de boas-vindas, esperou até que o jovem oficial desmontasse do cavalo.
— Vincent! É você mesmo ou estou tendo visões? — exclamou o recém-chegado. — Já tinha perdido as esperanças de encontrá-lo.
— Certamente eu também não esperava vê-lo por aqui, Nicolas! — foi a resposta de Vincent Mawde. — Mas por que me procurava?
— Tenho novidades para te contar, amigo — informou Nicolas Giles. — Onde posso colocar meu cavalo?
— No mesmo lugar onde pus o meu — informou Vincent —, sob as árvores.
Sem dizer mais nada, Nicolas Giles conduziu o cavalo até as árvores. Vincent Mawde acompanhou-o com os olhos, uma expressão de perplexidade no rosto.
Que motivo fizera seu colega de regimento vir a sua procura? Fazia uma semana que vivia em barracas, o que lhe parecia extraordinário. Por isso, após ter suportado a solidão por tempo tão longo, era-lhe agradável ver um rosto amigo.
Levou menos de cinco minutos para que Nicolas voltasse, tirando o pesado casaco do uniforme enquanto caminhava. Vincent tinha erguido a barraca debaixo de algumas pedras resultantes da ruína de um antigo templo. Elas ofereciam-lhe proteção do sol e um lugar para descanso de suas costas.
O rosto dele, bem como seu corpo, tinha um forte bronzeado.
Seria difícil, mesmo para seus parentes mais próximos, reconhecer nele o inglês de pele clara que sempre fora.
Nicolas sentou-se ao lado dele, e, atirando o casaco ao chão exclamou:
— Não sabe como me sinto satisfeito por tê-lo encontrado! Tudo o que posso dizer sobre esse país é que é grande e quente demais!

A Dama de Companhia





Sozinha, com fome e frio, Jacoba sentia-se triste e cada vez mais infeliz no trem que a levava para a Escócia, rumo a um destino desconhecido.

Filha de uma antiga família inglesa, estava órfã e falida, precisando se empregar como governanta de um velho senhor, o conde de Kilmurdock, chefe de um poderoso clã nas Terras Altas. 
Quase chorando, Jacoba lembrava-se dos tempos em que era feliz ao lado dos pais, em sua bela mansão no interior da Inglaterra. Agora, sem parentes e amigos, tinha medo, muito medo, de nunca mais poder encontrar carinho sincero, paz e felicidade!

Capítulo Um

1879
Jacoba correu mais uma vez os olhos pela sala vazia de móveis e quadros. O sol que brilhava forte no jardim e atravessava as vidraças em forma de losango tornava mais desolador ainda aquele cenário.
Impossível acreditar que depois de toda uma vida desfrutando do luxo daquela mansão estilo Tudor, onde fora tão feliz ao lado de seus pais, agora nem sequer tivesse para onde ir.
A casa ficava no fim da vila, circundada por um muro grande de pedras. Toda a propriedade pertencia a seu tio, lorde Bresford.
Jacoba conhecia cada árvore do imenso jardim, cada declive do terreno onde a água da chuva se acumulava formando poças que eram a delícia das crianças. Aprendera a amar as baias dos cavalos e o riacho que cortava o jardim.
Tudo aquilo fora parte de uma infância alegre e feliz, cenário das mais belas recordações que trazia na memória.
Até que acontecera a catástrofe — não havia outra forma de dizê-lo. Todo o seu mundo viera abaixo ao receber a notícia de que seu pai e seu tio estavam mortos, vítimas de um acidente com o trem que voltava de Londres.
Quando sua esposa ainda vivia, o pai de Jacoba era um homem feliz, às voltas com seus cavalos, sua caça e ocasionalmente pescando salmão no rio Avon. Quando ela se foi, porém, deixou-o sozinho exceto por Jacoba, na época com quinze anos de idade apenas.
Desde então ele passara a ir regularmente a Londres na companhia do irmão, lorde Bresford, um solteirão inveterado.
Dezoito anos mais velho que o pai de Jacoba, sempre fora alvo das maiores críticas. Na vila comentavam seu comportamento libertino com belas mulheres da sociedade, porém, de moral duvidosa, bem como com as moças de um mundo um pouco mais "subterrâneo".
Jacoba sempre ouvira tais comentários, porém eles nunca a preocuparam, exceto quando seu pai passou a ser companhia constante do tio nas viagens a Londres.
Tanto um quanto o outro viviam prometendo levá-la na próxima viagem que fizessem, porém isso nunca aconteceu, e à medida que os anos foram passando esse compromisso foi ficando cada vez mais esquecido.
Porém o que mais a incomodava era ver seu pai procurando por toda a casa objetos de valor que pudessem ser vendidos sempre que voltava de Londres. E foi com grande surpresa que ela descobriu que seu tio fazia exatamente o mesmo.
— O senhor vai ter coragem de vender essa salva de prata, papai? — Jacoba protestou um dia. — Ela foi presente de um padrinho a mamãe, e originalmente pertenceu a George III.
— Posso conseguir um bom preço por ela — fora a resposta que ele lhe dera. — E estou precisando do dinheiro.
— Mas por quê? O que o senhor comprou que seja assim tão caro?
— O problema não é o que comprei, mas sim o quanto gastei! — ele respondeu. — Em Londres tudo é pelo menos cinco vezes mais caro do que no interior. Talvez seja difícil para você compreender, mas existem mulheres que têm o poder de arrancar como que por encanto até o último centavo do bolso de um homem.
Ele tinha razão, era mesmo difícil compreender tal coisa.
Mesmo assim Jacoba preferiu não tocar mais no assunto, nem mesmo quando os espelhos Queen Anne foram retirados das paredes. Por fim até as jóias de sua mãe desapareceram de dentro do cofre.
Quando fez dezoito anos Jacoba viu renascer dentro do peito a esperança de que seu pai a levasse para conhecer a tão falada Londres.
Claro que ele não estava em condições de oferecer-lhe um baile, mas talvez pudesse apresentá-la às belas damas que apareciam nos jornais, patrocinando festas enormes, recepções e bailes todas as noites. Mas eram vãs suas esperanças; o pai continuava ausentando-se na companhia do irmão apenas.

A Pérola e o Dragão






China, terra fascinante! 

Misteriosa e bela China do começo do século XX, quando Pequim, chamada Cidade Proibida, foi saqueada por terríveis e perversos soldados.
Stanton Ware, um inglês destemido e corajoso, aceitou lutar contra as infâmias que punham em risco a liberdade do povo chinês. 
Encontrou para ajudá-lo Tseng-Wen, um velho sábio, e Pérola Perfeita, uma espiã tão jovem e linda que iria tornar mais agradável sua árdua e perigosíssima missão.

Capítulo Um

— Francamente, não compreendo sua preocupação, major Ware — comentou sir Claude Macdonald, fazendo um floreio no ar com o cachimbo. — Vir da Inglaterra até aqui a mando do primeiro-ministro, por causa de uma simples desordem de rua!
— Ele anda ouvindo rumores inquietantes. Parece que há muito descontentamento nas províncias — respondeu o major, cautelosamente.
— Ora, esses chineses estão sempre descontentes! Como ministro de província, asseguro-lhe que saberei manobrar perfeitamente qualquer situação difícil que possa surgir... se é que vai surgir — sir Claude Macdonald falou algo rispidamente, como se sua autoridade estivesse sendo questionada.
Stanton Ware olhou-o, pensativo. O primeiro-ministro tinha razão quando insinuara que sir Macdonald talvez não fosse o homem certo para o lugar certo. Mentalmente repassou o recente artigo do Times, que lera pouco antes de embarcar:
“Todos receberam a indicação de sir Claude Macdonald com ceticismo, denunciando-a como sendo no mínimo desagradável. Sir Macdonald foi alvo de ataques impiedosos logo após sua nomeação, por parte dos funcionários da embaixada. É conhecido entre eles como pessoa fraca, tagarela e gabola, o tipo do militar que caiu de pára-quedas num cargo importante, devido a suas nobres raízes.”
Stanton Ware não dera maior importância aos comentários, mas agora experimentava a inquietante sensação de que sir Macdonald não tinha a menor condição de manobrar perfeitamente os problemas que certamente estavam por aparecer.
Na verdade, era irônico e trágico que, num momento como este, a Inglaterra estivesse sendo representada na China por um ministro cuja única experiência com o país residia no fato de ter sido instrutor de artilharia em Hong Kong.
Um crítico mordaz certa vez referira-se a sir Claude Macdonald como “o fibrento varapau de bigodinho encerado”.
E era justamente esse bigode que sir Macdonald cofiava aplicadamente, enquanto falava em tom pomposo:
— Pode informar o primeiro-ministro, major Ware, de que mantenho tudo sob controle, apesar de alguns incidentes de pouca importância ocorridos recentemente.
Stanton digeriu com dificuldade a afirmação solene e depois falou, controladamente:
— A morte do reverendo Brooks não me parece de pouca importância.
— Os missionários sempre causaram problemas na China, desde que obtiveram permissão para se estabelecer aqui. Desde 1860, portanto. Sabe como os chineses prezam o culto aos ancestrais, e os missionários atacam-no com quantas armas têm. Brooks era um deles, meu caro.
— Bem sei — respondeu Stanton Ware, calmamente. — Tanto que foi assassinado.
Parou, pensando na maneira pouco ortodoxa com que os missionários haviam requisitado diversos templos chineses para suas igrejas, alegando que estes, no passado, haviam pertencido a ela. Os franciscanos, por exemplo, tinham chegado ao ponto de tentar cobrar aluguel dos chineses pelo uso dos templos nos últimos trezentos anos!
Não satisfeitos com isso, ainda escolheram lugares que a tradição chinesa considerava sagrados para ali construir igrejas cristãs.
— Devo insistir, caro major, no fato de que julgo esses incidentes de pequena monta. O que realmente interessa é nosso poder de comércio na China. Ele vem sendo abalado desde que navios mercantes russos aportaram em Port Arthur, há quatro anos.
Quanto a isso, não havia como negar. Os cinco grandes poderes batiam-se entre si para manter a melhor posição na China e, com isso, deixavam-na minada e exposta. Paradoxalmente, os ocidentais auxiliavam-na a manter-se coesa, tal o receio que tinham de vê-la anexada a um dos outros quatro poderes. Somente o egoísmo dos ocidentais e sua incessante rivalidade impediam que a China ficasse cada vez mais retalhada.
No meio disso tudo, os manchus, confortavelmente instalados em Pequim, a grande capital do Império Celeste, enganavam-se a si próprios proclamando-se fortes e imbatíveis.
Como dissera um jovem oficial da embaixada a Stanton: “Os manchus são fracos e arrogantes; os europeus, fortes e igualmente arrogantes. Belo estopim para uma guerra!”

8 de março de 2015

Um Coração por Conquistar



Tiffany Warren está prestes a se casar, mas não por amor, mas para acabar com uma antiga rixa.

Relutantemente, viaja para o oeste ao encontro de seu pai e do filho mais velho do inimigo deste, o fazendeiro Hunter Callahan.
A união entre Hunter e Tiffany é para acabar com uma briga entre os Warren e os Callahan por um lote de terra.
Mas o trem em que viaja é atacado, e durante a confusão Tiffany aproveita a oportunidade para assumir a identidade da nova governanta de seu pai, o que lhe permitirá viver com o pai que nunca viu e avaliar a sua autenticidade, e também conhecer o cowboy vizinho com quem está comprometida...

Capítulo Um

Rose Warren deixou de chorar justo antes que sua filha Tiffany abrisse a porta de sua mansão de pedra avermelhada, mas não podia tirar da cabeça as palavras que tinham provocado suas lágrimas: “Veem com ela, Rose. Já faz quinze anos, não acha que já nos torturamos o bastante?”.
Normalmente deixava que fosse sua filha, que tinha completado dezoito anos no mês anterior, quem lesse as cartas de Franklin Warren. Frank estava acostumado a escrever coisas impessoais para que Rose pudesse compartilhá-las com sua filha. Esta vez não o tinha feito, assim Rose a dobrou e a meteu no bolso quando ouviu a voz de Tiffany no vestíbulo. A jovem não conhecia o autêntico motivo pelo qual seus pais não viviam juntos. Nem sequer Frank sabia o motivo real que ela tinha tido para deixá-lo. E depois de tantos anos, era melhor que seguisse assim.
—Tiffany, veem ao salão, por favor! — gritou-lhe Rose antes que ela pudesse subir para o seu quarto.
Com a luz da tarde cintilando em seu cabelo loiro avermelhado, Tiffany tirou o chapéu enquanto entrava no salão e em seguida a capa curta e fina que levava sobre os ombros. 
O tempo estava muito quente para um casaco, mas mesmo assim uma dama de Nova York tinha que se vestir respeitavelmente quando saía de casa.
Rose olhou para Tiffany e recordou mais uma vez que sua pequenina já não era tão pequena. Desde que sua filha havia completado dezoito anos, Rose tinha rezado mais de uma vez para que deixasse de crescer. Já estava bastante acima da média de um metro e setenta e a pequena se queixava disso. Tiffany era tão alta como seu pai, Franklin, e também tinha seus olhos verdes esmeralda, embora ela não soubesse. 
Tinha os ossos magros de Rose e umas feições delicadas que a faziam mais do que bonita, embora só em parte tivesse herdado o cabelo ruivo de sua mãe; o de Tiffany era mais acobreado.
—Recebi uma carta de seu pai.
Nenhuma resposta.
Tiffany estava acostumada a emocionar-se com as cartas de Frank, embora isso fizesse já muito tempo, mais ou menos pela época em que tinha deixado de perguntar quando as visitaria.
O coração de Rose rompia ao ver a atitude de indiferença que havia adotado sua filha para seu pai. 
Sabia que Tiffany não conservava nenhuma lembrança dele. Era muito pequena quando Rose e ela partiram de Nashart, em Montana. 
Rose sabia que deveria ter deixado que se conhecessem ao longo de todos aqueles anos. Frank tinha sido magnânimo lhe enviando os meninos, embora ela estivesse segura de que o tinha feito para fazê-la sentir-se culpada por não lhe corresponder e permitir que sua filha o visitasse.
Temia que Frank não deixasse que Tiffany voltasse para casa com ela. Era um temor infundado, seu pior pesadelo. 
Em uma explosão, tinha-a ameaçado que ficaria com sua filha. Tinha-a ameaçado com muitas coisas apenas para voltar a reunir-se a sua família. E ela nem sequer podia culpá-lo por isso! 
Mas isso não ia ocorrer. Impossível. E agora teria que enfrentar o seu pior medo: que quando Tiffany fosse a Montana, ela jamais voltasse a vê-la.
Deveria ter insistido em que o prometido de Tiffany viesse á Nova York cortejá-la. Mas isso teria sido a gota que enche o copo para o Frank, que tinha respeitado o desejo de Rose durante quinze anos e havia se mantido afastado dela. Mas havia chegado o ano em que lhe havia prometido que Tiffany voltaria a viver sob seu teto. 
Rose não podia mantê-los separados por mais tempo e seguir com a consciência tranquila.
Tiffany se deteve ante ela e estendeu a mão reclamando a carta, mas Rose, em vez de dar-lhe assinalou-lhe o sofá.
—Sente-se.
Sua filha arqueou a sobrancelha ao negar-se a entregar-lhe a carta, mas sentou-se frente a ela. 


1 de março de 2015

Armadilha de Amor

Saga da família Lester







Harry Lester interessado em cavalos era um libertino confesso.

Depois de que na juventude teve seu coração menosprezado pela mulher a quem amava, não tinha intenção de voltar a apaixonar-se e, muito menos, de deixar-se apanhar nas teias do matrimônio.
Pouco depois de que por pura sorte sua família teve uma drástica mudança em sua situação financeira, tornou-se um alvo das casamenteiras decidiu abandonar Londres fugindo para Newmarket, lugar que se notabilizavam pelas famosas corridas hípicas.
Estava chegando quando encontrou acidentalmente com Lucinda Babbacombe, uma bela viúva de sólida situação financeira.





Saga da família Lester
1. As Razões do Amor
2. Um Futuro de Esperança
3. Armadilha de Amor

Os Caminhos do Coração






Um amor para sempre

Quando o destino... e um impulso cavalheiresco... convergem para colocar no caminho do visconde Ashley Desford, a graciosa e encantadora Cherry Steane, uma jovem abandonada que vive da caridade de parentes, a quem mais ele poderia recorrer em busca de ajuda senão sua amiga de infância, Henrietta Silverdale? Afinal, embora tenham rompido o noivado anos atrás, Ashley e Henrietta nunca deixaram de ser amigos.
Contudo, enquanto Ashley sai à procura do avô sovina de Cherry e de seu irresponsável pai, visitando lugares não muito bem frequentados, Henrietta se pergunta se ele, finalmente se deixou atingir pela flecha do amor. No entanto, sem a oportuna intervenção de seu irmão Simon e do honrado pretendente de Henrietta, Ashley pode estar prestes a cometer a maior tolice de sua vida...

Capítulo Um 

Inglaterra, 1825
Para um homem de idade avançada, sofrendo de dispepsia e violentas crises de gota, obtendo algum prazer somente quando suas dores eram aliviadas, o conde de Wroxton se divertia na medida do possível. Ultimamente estava concentrado na agradável tarefa de desenvolver uma diatribe sobre os defeitos do seu herdeiro. Para uma pessoa sem experiência na arte da crítica, a tarefa certamente parecia injusta, pois o visconde Ashley Desford possuía todos os atributos de um filho que seria motivo de orgulho para qualquer pai. Somando-se ao belo semblante, e uma figura ágil e atlética, ele tinha modos afáveis provenientes tanto de uma amabilidade inata, quanto da criação. 
Tinha também um considerável histórico de paciência e senso de humor que transparecia em um sorriso, que brotava dos olhos, considerado por muitos, irresistível. Seu pai não fazia parte deste grupo. Aliás, considerava o status irritante.
Era mês de julho, mas o tempo estava tão distante do abafamento esperado para a estação, que o conde mandou acender a lareira da biblioteca. Sentados um de cada lado da lareira, estava o conde, com um pé enfaixado sobre um banquinho, e seu filho, após ter discretamente afastado a cadeira do calor emitido pelas brasas. Ashley usava paletó, calça de camurça e botas de cano alto, um perfeito traje matutino para qualquer cavalheiro em estada no campo. 
A elegância derivada do corte do paletó e do arranjo do lenço de pescoço deu ao pai uma desculpa para classificá-lo como um desprezível almofadinha. Ao que ele reagiu com um protesto moderado.
— Não, não, Sir! Um verdadeiro dândi ficaria chocado ao ouvir isso!
— Concluo, então, que você se considere um coríntio.
— Para ser honesto, Sir, não me considero nada! — discordou Ashley. Esperou por um momento, observando tanto com empatia quanto com divertimento o ranger de dentes do pai, antes de completar em tom bajulador. — Agora diga, o que fiz para merecer uma repreensão sua?
— Não seria melhor indagar o que fez para merecer um elogio meu? Nada! Você é um cabeça de vento! Um falastrão, que se importa com o próprio nome tanto quanto um plebeu qualquer! Um perdulário. Não precisa me lembrar de que não depende de mim para gastar com os cavalos, apostas e bocados de musselina, pois não me esqueci que aquela maluca da sua tia-avó deixou toda a sua fortuna para você, por meio de uma carta branca para que você possa cometer todo tipo de extravagância tola. 
Não posso dizer mais nada, uma vez que ela era tia de sua mãe. — Wroxton fez uma pausa, lançando um olhar desafiador ao filho.
— Certamente, papai!
— Se ela tivesse estipulado que a fortuna deveria ser usada apenas para o sustento de sua esposa e família, eu consideraria o legado adequado — anunciou Wroxton. — Não que na época, ou neste exato momento, eu não possa aumentar a sua mesada para que você tivesse condições de arcar com as despesas de um homem casado.
Outra pausa se seguiu. Pressentindo que o pai esperava algum comentário, disse educadamente que lhe era muito grato.
— Ah, não é não! — retrucou Wroxton. — E quer saber mais? Só acreditarei na sua gratidão quando me der um neto, não importa o quanto a fortuna da sua tia queime no seu bolso. Belo bando de filhos eu tenho! 
— De repente o alvo da revolta foi ampliado. — Nenhum de vocês se importa com a linhagem da família. Na minha idade, eu esperava ter um bom número de netos para alegrar meus últimos dias. Mas eu tenho algum? Não! Nenhum!


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