19 de fevereiro de 2018

Doce Inimizade

Série Doce Londres
Lady Elizabeth Albrigth está de volta a Londres depois de ter crescido na França, após o falecimento de sua mãe. 

Recém apresentada em sociedade, o seu pai, o marquês de Ardem, espera que consiga um bom matrimônio. 
No entanto, ela não tem intenção de escolher um marido, muito menos de casar-se.
Decidida a retornar ao povoado onde foi criada por sua avó materna, Lizzy deve resignar-se a passar uma aborrecida temporada social e tolerar ser oferecida, qual mercadoria, no mercado matrimonial. Lorde Nicholas Bladeston, Duque de Stanton, é famoso por ser um solteiro contumaz. 
Resolvido a manter-se longe dos bailes e eventos sociais, evita mães casamenteiras e debutantes virgens.
Mas quando um assassino começa a atingir alvos aristocráticos, é-lhe atribuída uma missão real: deverá aventurar-se nos salões londrinos para tentar descobrir o homicida e possível traidor do rei, e assim frustrar seus planos.
Seus caminhos cruzar-se-ão e juntos mergulharão no perigoso mundo da espionagem, cheio de traições, mentiras e morte. E enquanto tentam sobreviver, perderão os seus corações para a paixão e para o amor.


Capítulo Um

"O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males"
Nicholas Bladeston, nono Duque de Stanton, deixou docemente o jornal sobre a mesa do café da manhã, pensativo.
Há algum tempo, a sua natureza curiosa tinha captado uma série de feitos _ assassinatos de homens pertencentes ao mundo elegante, mais precisamente. As vítimas foram achadas em diferentes becos dos piores lugares de Londres. Mas o mais curioso era que todos tinham morrido de uma mesma maneira _ de um único e certeiro tiro. As autoridades, ao que parecia, pensavam que existiam indícios suficientes para acreditar que eram feitos isolados. 
Mas ele não estava de acordo; muitas coincidências e muitos buracos nas investigações de cada feito alimentavam as suas dúvidas. Sem contar que nenhum dos mortos frequentava os lugares onde tinham sido achados os seus corpos; não havia testemunhas, nem mais pistas, tudo era muito turvo e ele estava certo de que as autoridades escondiam alguma coisa.
Como os assassinatos continuavam, Nicholas decidiu entrar em contato com uma pessoa de confiança do rei e averiguar se as suas suspeitas eram corretas. O que descobriu o deixou estupefato. Não só eram corretas as hipóteses da conexão entre as mortes, como também todas as vítimas estavam, de alguma maneira, envolvidas no contrabando que acontecia entre a França e a Inglaterra. 
Esse mesmo incluía tanto armas, como mercadorias e o negócio mais perigoso – a venda de informação.
Por isso, imediatamente, marcou um encontro com o Ministro da Guerra – antes tinha trabalhado para ele passando informação e dados úteis. 
O ministro lhe confiou que estavam atrás de uma pista de espionagem e possível traição ao Rei Jorge. Além disso, aparentemente, alguém se tinha precavido disso e o cabeça da organização tentava encobrir o seu rastro eliminando os seus membros mais expostos.
A segurança britânica tinha a certeza de que o assassino, e possível traidor era nobre, alguém localizado no coração da nobreza, com as melhores conexões, o que lhe permitia estar sempre um passo à frente. Por isso, ofereceu-se para ficar à disposição da coroa e usar o acesso e os benefícios que o seu título de duque lhe outorgava para tentar desmascarar o traidor e descobrir os seus planos.
A porta da sala de jantar se abriu e apareceram a sua mãe ― a duquesa ― e sua irmã mais nova. 
Não pareciam ter sequelas de ter retornado a altas horas da noite, logo depois de terem assistido a outro interminável baile. Sua irmã, que acabava de ser apresentada em sociedade e que ― pelo que tinha escutado ― já causava sensação entre a população masculina, olhou-o e arqueou uma dourada sobrancelha.
— Brincando de detetive outra vez, irmãozinho? ― A risada lhe dançava nos olhos.
— Bom dia, mãe — disse Nicholas ficando de pé —. Está radiante como sempre, irmã — disse, fazendo uma inclinação com a cabeça.
Sua irmã lhe mostrou a língua, brincalhona, e depois agarrou um prato para ela e para sua mãe. Com um sorriso, Nicholas voltou a sentar-se. «Para alguém tão magro, a minha irmã tem um considerável apetite», pensou enquanto a observava servir-se. Certamente as velhas matronas da alta sociedade escandalizar-se-iam se soubessem que pessoas de sua posição se serviam de comida sem chamar os lacaios. Mas desde que tinha memória tinha sido assim. Seu pai, o antigo duque, não lhes tinha dado uma educação muito ortodoxa. 
O duque gostava de tomar o café da manhã em família e que se servissem eles mesmos. Inclusive lhes ensinou a montar sem sela. Ele mesmo se ocupou de ensinar-lhes a escrever, ler, pescar, nadar e até dirigir uma carruagem. A sua prematura morte os tinha destroçado. A sua ausência ainda lhe doía. Sacudiu a cabeça; deveria fazer como a sua mãe, que o recordava com alegria e riso. Ela tocou-lhe no braço, tirando-o de seus melancólicos pensamentos.
— Filho, está bem? ― Levo horas falando e você só me olha como um peixe moribundo. — «O exagero, evidentemente, é um traço familiar», pensou Nick.
— Sinto muito, sempre me agradou a vida marinha, já sabe —disse sorrindo.
A risada de Clarissa ressonou no cômodo; a sua mãe a fulminou com o olhar e depois lhe beliscou o braço. O seu sorriso se transformou em uma careta dolorida. Queixou-se em voz alta e murmurou:
— Perdão, mãe, o que dizia?
— Contava-lhe do grande baile que se celebrará esta noite. Será o acontecimento da temporada; todo aquele que se considera alguém assistirá.
Nicholas sabia aonde queria chegar. A seus vinte e oito anos já era perito em evitar tediosas festas, onde estaria rodeado de virgens ruborizadas, debutantes vestidas de branco e, o pior, de mães e damas de companhia ávidas para caçar um título. Isso sem contar com os cavalheiros desejosos de cair em suas boas graças, com óbvias intenções de ascender à seu volumoso bolso. A mera visão disso o aterrava; podia passar sem esse grande acontecimento. Olhou para sua mãe, que o observava expectante, enquanto a sua irmã parecia adivinhar os seus pensamentos.
— É óbvio, mãe, que pode assistir. Se quiser algum acessório para o seu vestuário, não tem mais que dizer... — Ela o interrompeu com um gesto.
— Oh, por favor! 



Série Doce Londres
1-  Doce Inimizade


17 de fevereiro de 2018

Da Inglaterra à Virginia

Série McLeod
Anne McLeod, filha de um Barão inglês, herdou uma vasta propriedade na longínqua Virginia.

Por causa de uma decepção amorosa, empreende a maior aventura de sua vida para se encarregar do magnífico rancho Eaglethorne. Em sua nova moradia conhecerá a Harrison Bradley, um orgulhoso vaqueiro por quem se apaixonará perdidamente.




Capítulo Um

Anne McLeod desceu do navio sentindo-se algo decomposta e debilitada pela longa viajem. Seu primeiro pensamento foi que a América do Norte não se parecia em nada à imagem mental que ela tinha feito, durante as longas semanas em alto mar. Não estavam à vista as planícies, os profundos bosques, nem as azuis montanhas cobertas de neve.
No porto de Annapolis, em Maryland, um conjunto de casinhas toscas se apinhavam nas ruas laterais do agitado porto comercial.
A chegada do navio com bandeira inglesa tinha captado a atenção de todo aquele que procurava uma oportunidade para vender, comprar, transportar bagagem, e inclusive apropriar-se dos bens alheios. Alguns trombadinhas farejavam a carga que os marinheiros começavam a deixar sobre as tábuas da doca, enquanto os camelôs anunciavam, a viva voz, suas mercadorias.
O lodo que cobria as ruas empapava a roupa, o cabelo e os sapatos de um conjunto de meninos que começava a rodear a Anne estendendo, para ela, seus dedos sujos para receber algumas moedas.
— Madame! Madame! Temos fome, senhora, uma moeda por favor — suplicavam.
Anne sentia que a cabeça lhe dava voltas. Nenhum dos passageiros, que tinham viajado com ela, estava agora na doca.. O que teria acontecido a condessa Dujardin? Não estava junto a ela fazia um só momento?
— Madame Dujardin! — Gritou a jovem, enquanto os dedos pegajosos dos meninos tocavam suas luvas de pelica — Sonya! Onde está você? OH, Deus…
Anne sentiu um calafrio lhe correr pelas costas, enquanto observava desfilar centenas de caras desconhecidas ao seu redor, teria ficado sozinha no novo continente? Por um momento pensou que seu pai tinha razão e que jamais deveria ter ido ali, que a viagem era muito perigosa para uma jovem sozinha.
Naquele momento, Anne tinha atribuído, a reticência do Barão, à prematura morte de sua esposa, Jane. Fosse como fosse, a jovem nunca tinha sido presa da apreensão que sentia seu pai sobre sua viagem à América. Estando na Inglaterra se achou muito confiada e ansiava chegar a Virginia para encarregar-se de sua nova propriedade. Agora, só e perdida em um porto estranho, já não estava tão segura de si mesma.
Ainda recordava o bate-papo que tinha mantido com seu pai, na biblioteca de sua casa, duas semanas antes de sua partida. Era o fim do inverno e o fogo crepitava na lareira, enquanto no jardim a neve caía, silenciosamente, sobre a grama ressecada. O gelo da noite invernal cobria os cristais das janelas e impedia de ver a planície que circundava Mallsborough Hall. 
À luz do fogo, seu pai lhe falava com dureza, enquanto Anne quase suplicava. Ela sabia que devia partir dali, que não havia outra maneira de seguir adiante, de esquecer tudo o que havia sofrido por causa de Lorde Arthur Avegnale… Anne não desejava nem sequer recordar. 
Aos vinte e dois anos, a moça sentia que tinha vivido tudo, e que já não era uma jovenzinha inocente e cabeça oca como qualquer de suas imaturas amigas.
Seu pai também tinha sofrido muito ao longo de quase toda sua vida e, em parte, Anne sabia que era por isso que resistia a permitir que sua filha mais velha partisse para terras desconhecidas. Depois dos sete anos nos quais tinha combatido na guerra, o Barão tinha encontrado quietude nos braços de Jane, a mãe de Anne, até que a tuberculose a levasse de seu lado. A partir de então, a moça tinha visto seu pai encerrar-se, cada vez mais, em si mesmo. 
Ele e o tio Rolf passavam o dia trabalhando no campo e não se detinham, para descansar, mais que umas horas de noite. Anne não recordava que seu pai houvesse tornado a sorrir depois do desaparecimento de sua amada esposa, cinco anos atrás.
Aos dezessete anos, Anne precisou encarregar-se de seus três irmãos menores e da administração da enorme casa onde vivia a família McLeod. 
Obrigada a tornar uma adulta, do dia para a noite, a jovem se sentia mais do que capacitada para empreender a aventura de viajar várias semanas em um velho navio e radicar-se, para sempre, na América do Norte. Seus irmãos tinham crescido e já não a necessitavam.
Seu avô, o duque do Hyde, tinha lhe deixado em herança umas vastas terras nas quais florescia o tabaco. Anne ainda recordava quando o ancião a tinha chamado a seu lado, junto ao resto de sua família. Em seu leito de morte tinha falado, pela última vez, com seus dois filhos, Max e John, e com cada um de seus cinco netos.
Somente Anne tinha recebido uma extensão de terra tão imponente, mas ninguém se surpreendeu, já que todo mundo sabia que o Duque sentia predileção por sua neta mais velha. A fazenda tinha sido comprada, pelo ancião, décadas atrás, de um brilhante homem de negócios, americano, quem lhe tinha assegurado que, dela, obteria enormes lucros. 
A jovem ainda recordava esses últimos momentos com seu avô. Ele lhe havia dito que ela poderia encarregar-se das terras e que a nenhum outro membro da família lhe tinha interessado. Durante anos, o imponente imóvel chamade Eaglethorne tinha sido ignorado.
Segundo o Duque, o tabaco seria o produto com maior futuro nos anos vindouros e, se a brilhante e enérgica Anne, se fazia cargo da propriedade na Virgina, então todos os McLeod se beneficiariam com os lucros. 
O Duque tinha uma confiança cega em sua voluntariosa neta. A princípio, Anne, não soube o que sentir em relação a sua herança. Todos os seus planos, naqueles dias, centravam-se em seu próximo casamento com Lorde Avegnale… Arthur…



Série McLeod
1- Da Inglaterra à Virginia

12 de fevereiro de 2018

Tempo de Promessas

Série Crônicas do Tempo
Ano 917
As contínuas batalhas contra os muçulmanos assolam os crescentes reinos cristãos. 

Martín Ruiz de Vega, guerreiro a serviço do rei Ordoño, decide aspirar a algo mais, por mais que sua situação militar lhe traga substanciais e inesperadas recompensas. 
Cansado de tanto derramamento de sangue, apenas deseja formar família e levar uma vida tranquila. Mas a pessoa escolhida por ele, a única com quem anseia fazê-lo, está fora de seu alcance. Jimena de Medina é uma donzela tão inocente quanto bela, cuja memória foi seriamente afetada depois de presenciar o assassinato de seu pai, ocorrido anos atrás. Desde então vive protegida por seus irmãos, esperando o momento de cumprir com os desígnios do rei, que a entregou em casamento a um poderoso conde castelhano.
Agora, uma missão que é confiada ao guerreiro, com o único fim de prejudicá-lo, acabará por converter-se na melhor viagem das vidas de Martín e de Jimena, provocando uma cadeia de acontecimentos que colocarão seus corações à prova sobre promessas de sangue esquecidas…

Capítulo Um

Condado de Trabada, Álava. Dezembro de 917
Por fim em casa
Odón apertava em suas mãos a carta de arras que recebera do senhor de Laciana, deixando que seus pensamentos se perdessem por entre as chamas da lareira que tentava aquecer o ambiente.
A promessa da entrega de uma quinta parte de suas possessões quando celebrado o casamento com Jimena já doía, embora reconheça que essa aliança era o melhor para estreitar laços com Ordoño, através de uma das famílias mais influentes de Leão. Além disso, a noiva não era má. Nada má.
Tinha-a conhecido acidentalmente, durante as negociações. Não recordava ter trocado qualquer palavra com ela, mas a imagem conseguira estimulá-lo o suficiente para ver aquela união com outros olhos.
Uma jovem pura, de bom berço e com um aspeto físico que prenunciava uma descendência abundante e vigorosa.
Com um sorriso astuto, Odón voltou a ler a carta de arras. Para ele, o prazer no leito estava intimamente ligado à dor. E o corpo de Jimena parecia suficientemente forte para suportar o segundo. Como ia se deleitar! Quanto mais ela sofresse, mais ele se excitaria. De repente desejou tê-la disposta, esperando-o. Ou rebelde e lutadora, não sabia qual das duas coisas lhe parecia mais atraente.
O que estava claro era que brevemente poderia utilizar Jimena para tornar realidade todas suas anormais fantasias sexuais. Ocupar-se-ia daqueles seios tão tenros, até os deixar avermelhados e desprovidos de qualquer inocência, tal como faria com a sua dona. Bom Deus, quantas vezes os tinha imaginado em suas mãos, ardentes por ele!
Tremia de impaciência. De ardor contido, porque teria de segurar a sua descontrolada criatividade no leito até que o casamento se tivesse realizado.
No momento, devia preparar-se para receber a sua adorada meia-irmã, Munia e a sua madrasta Urrica.
― Vai queimar o documento? Deveria pensar antes de agir.
Fora Urrica quem falara. A segunda esposa de seu pai era uma basca da cabeça aos pés, implacável e fria, que só demonstrava certa fraqueza com ele. Não era a primeira vez que a surpreendia olhando-o com interesse que nada parecia ter de maternal. Com os restantes, incluindo sua própria filha, era tão bruta que arrepiava.
Alguns passos mais atrás encontrava-se a autêntica debilidade de Odón. Parecia uma cópia rejuvenescida de Urrica, mas muito mais pura e inocente. Munia se mantinha na expectativa, sabendo que não devia mostrar euforia ao ver seu irmão, mas desejando fazê-lo. Compartilhavam o pai, e outras recordações que ninguém podia quebrar. Alta e exuberante, de cabelos e olhos negros como a noite e pele branca, Munia parecia um ser de outro mundo. Etérea e tão inalcançável que Odón ainda não encontrara um homem adequado com quem a unir em matrimônio.
E tentara. Mas nenhum nobre lhe parecia suficientemente enfermo, velho ou afeminado para assegurar-lhe que não a olhariam com luxúria. Que, inclusive, não desempenhariam com vigor na noite de núpcias, para que ela continuasse pura.
Daria rédea solta com Jimena, à paixão frustrada por Munia. Se ele não a podia tocar, ninguém o faria em seu lugar.
Amavam-se de uma maneira especial. Odón apenas precisou fazer um breve gesto com a mão para que Munia se adiantasse com um sorriso radioso em seus lábios sensuais e lhe desse um abraço caloroso.
― Senti sua falta, irmão ― murmurou, antes de depositar um beijo dissimulado em sua face.
― Vê, mãe? Esta sim é uma recepção digna de um conde ― apontou Odón, deixando o copo vazio sobre uma enorme mesa de madeira para pegar uma maçã e dar-lhe uma mordida ―. Acabo de regressar depois de muitos dias de viagem, quando o ano está prestes a acabar. Não mereço, pelo menos, uma palavra amável?
― Sua irmã já lhe deu todas ― sentenciou Urrica, com um olhar de advertência dirigido a Munia, antes de fixá-lo na carta que roubou a Odón ―. Vejo que os caprichos de Ordoño valeram a pena. Não lhe ensinei nada em todos estes anos?
― Sim. A impor a sua vontade por todos os meios, quer sejam dignos ou indignos. A proferir doces palavras para ocultar intenções cruéis. A manobrar situações não controláveis a partir de uma aparente fragilidade. Isso e muito mais.
― E me agradece cedendo parte de suas terras? ― Urrica sacudiu o pergaminho diante da luz de uma das tochas da parede ―. Você partiu para ampliar seus domínios, não para diminuí-los através de sua união com a filha de um traidor do falecido García. Por muito que seja o dote correspondente.
A paciência de Odón começou a fraquejar naquele momento. Afastou Munia com delicadeza e se aproximou de sua madrasta, disposto a defender o nome de Jimena. A excitação que experimentava cada vez que pensava nela bem o merecia.
― Dom Tello de Medina morreu no tempo do rei Afonso, de quem era defensor extremo, quando ela era uma menina! ― gritou ofendido ―. Não tem a culpa dos pecados de seu pai!
― Dom Tello foi assassinado nos seus aposentos, não se sabe por quem ― esclareceu Urrica ―. Esteve do lado de Afonso quando seu primogênito García se rebelou contra ele, e não se afastou de seu lado quando, cedendo às pressões, o rei repartiu o reino entre seus filhos García, Ordoño e Fruela. Isso o induziria a mais do que um inimigo.
― A “isso” se chama lealdade, mãe. Ainda que duvido muito que você saiba o que é.
― Talvez você possa explicar ― replicou Urrica ―. Assistiu ao enterro do rei Afonso com dom Tello.
Qualquer explicação teria sido em vão. Aquela mulher sempre provocava sentimentos contraditórios em Odón. Queria se livrar do veneno que durante anos se havia derramado sobre ele, mas era incapaz de o fazer. Desde que podia lembrar, os ensinamentos de Urrica haviam moldado a sua mente, com o mesmo interesse manipulador que ela esbanjava, aproveitando-se das ausências de seu pai absorvido nas guerras.
O tempo ensinou sua mente e seu corpo, até convertê-lo em um guerreiro quase perfeito, com uma combinação mortal de astúcia e força que cedo tornou-o temido por seus inimigos.
Odón sentou junto à lareira virando-lhes as costas. Necessitava dar à sua cabeça a capacidade de análise necessária para enfrentar todas as frentes que se apresentavam.
― Hernán de Medina, o novo senhor, parece anda mais duro do que seu pai ― comentou, voltando ao assunto de seu casamento com Jimena ―. E protege Ordoño.
― Hernán de Medina? O famoso Lobo Cinzento? ― murmurou Munia.
― Espero que você nunca precise comprovar quão correto é esse apelido, irmã.
― Deve ser, pois você cedeu até este ponto ― replicou Urrica, assinalando a carta de arras ―. Dizem que essa Jimena sofre de delírios constantes deste a morte de seu pai. Que nem mesmo recorda de sua morte. Confio em que você a repudiará o quanto antes.
Odón se levantou de um salto. Usando a sua altura e força, segurou Urrica pelos ombros para sacudi-la sem compaixão.
― Acabou!! Ouviu bem? Acabou!



Série Crônicas do Tempo
1- Tempo de Promessas

10 de fevereiro de 2018

Eternidade

Série Saga Montgomery
Carrie Montgomery cresceu com sete adoráveis irmãos mais velhos, e ela costumava usá-los para obter o que queria com bastante facilidade.

Joshua Greene, um fazendeiro pobre, procurava apenas uma noiva, por correspondência que fosse prática e trabalhadora para ajudá-lo na fazenda, além de ajudá-lo a alimentar e vestir seus filhos.
No entanto, desde o momento em que Carrie viu sua fotografia, viu seu rosto devastadoramente bonito e seu sorriso triste, a pequena e mimada beleza dos Montgomerys, sabia que ela era a esposa perfeita para ele.
Josh não viu dessa maneira. Casado por procuração, ele se recusava a ser envolvido pelo encanto dos cachos loiros de sua nova esposa e suas risadas efervescentes, ou se impressionar com suas armadilhas de riqueza... mesmo que seus filhos acreditassem que ela era uma princesa de contos de fada ganhando vida.
Ele estava furioso e pronto para mandá-la embora, até que uma tragédia o convenceu de que sua beleza era mais profunda que a superficialidade da pele.
Mas, mesmo depois de ter cedido ao desejo selvagem que surgiu entre eles, Josh não podia admitir o quanto ele realmente precisava dela. Então um velho escândalo ameaçou ressurgir, e ele percebeu que poderia perdê-la para sempre.

Capítulo Um

Warbrooke, Maine 1865
Jamie Montgomery percorria a casa sem reparar em nada, já que tinha nascido nela e a conhecia bem. Se fosse qualquer outro se deteria em considerar a acolhedora comodidade da mansão e jamais poderia imaginar a fortuna da família proprietária. Tão somente um estudante de arte seria capaz de reconhecer a importância das assinaturas, nos quadros que se penduravam das paredes de estuque, ou dos nomes que podiam ler-se nas esculturas de bronze. E unicamente um conhecedor poderia calcular o valor dos tapetes, desgastados e manchados pelo uso que durante anos fizeram deles meninos e cães.
O mobiliário não se escolheu por seu valor, a não ser respondendo às necessidades de uma família que tinha habitando a casa há duzentos anos. Um antiquário teria reconhecido imediatamente o velho aparador da Rainha Ana encostado à parede e as pequenas cadeiras douradas do Império Russo, assim como eram chinesas as porcelanas da vitrine do canto e muito antigas para que pudesse valorizá-las uma jovem mente americana.
A casa estava lotada de quadros, móveis e tecidos procedentes do mundo todo, entesourados por gerações de homens e de mulheres Montgomery em suas viagens. Havia lembranças de todos os cantos do globo; desde peças exóticas encontradas em qualquer ilha minúscula até pinturas de mestres italianos.
Com grandes passadas de suas largas pernas, Jamie atravessou uma após outra os cômodos da imensa casa. Em duas ocasiões deu uma palmada à pequena bolsa de flanela que levava debaixo do braço, sorrindo cada vez que a tocava.
Finalmente se deteve diante de uma porta e, depois de roçá-la apenas com os nódulos, como se importasse pouco que pudessem ouví-lo, entrou no dormitório em penumbra. Embora o resto da casa mostrasse uma seca opulência, naquele quarto se apreciava até o último centavo da riqueza dos Montgomery.
Inclusive na escuridão podia ver o brilho do baldaquim de seda da imensa cama imperial que fora esculpida em Veneza, com seus postes transbordantes de anjos dourados. o dossel da cama penduravam centenas de metros de seda azul claro e as paredes do quarto estavam estofas com damasco de um azul mais escuro, tecido na Itália e devolvido a América em um barco dos Montgomery.
Baixou a vista ao leito e sorriu ao contemplar a cabeça loira que sobressaía do cobertor de seda. Aproximou-se das janelas, afastou os pesados cortinados de veludo, para deixar entrar o sol no quarto, e viu que a cabeça se afundava mais entre os lençóis.
Aproximou-se sorridente da cama e ficou olhando a adormecida, mas tudo o que podia ver era um cacho dourado que se enrolava no lençol. O resto ficava oculto sob a roupa de cama. 
Tirou de debaixo do braço a bolsa que levava, soltou os cordões e tirou um diminuto cão que não pesaria mais de três quilos e meio e cujo corpinho quase não podia ver-se, devido o pêlo longo e sedoso que o cobria. Era um maltês, e Jamie o tinha trazido da China como presente para a irmã mais nova. 
Levantou com extrema lentidão a colcha, deixou o cachorro na cama, junto a sua irmã, e logo, desfrutando por antecipado da surpresa, sentou-se em uma cadeira e observou o animal, que começou a agitar-se e a lamber a sua companheira de leito.
Carrie foi despertando pouco a pouco e a contragosto. Sempre lhe chateava abandonar a morna proteção da cama e demorava tanto quanto fosse possível. Fez um ligeiro movimento com os olhos, ainda fechados, enquanto afastava levemente os lençóis de seus ombros. Sorriu ao sentir a primeira lambida do cachorro e voltou a sorrir com o segundo. Tão somente abriu os olhos quando ouviu um pequeno
latido e, assim que seu olhar encontrou a face daquela criatura, sentou-se sobressaltada e levou uma mão à garganta. Ao apoiar-se contra a cabeceira, cravou as costas na ponta da asa de um dos anjos esculpidos e ficou olhando ao cão, piscando assombrada.
A risada de seu irmão foi o que lhe fez voltar à cabeça e, mesmo assim, passou um momento antes que percebesse o que ocorria. Quando por fim descobriu que seu queridíssimo irmão tinha retornado do mar, lançou um grito alegre e se lançou em seguida para ele, arrastando consigo o cobertor de seda e as mantas de cachemira.
Jamie, segurando-a suspensa em seus braços fortes e bronzeados: fez-lhe girar em redemoinho enquanto que na cama, detrás deles, o cachorro ladrava excitado.
- Tinha que chegar na semana que vem - disse Carrie sorridente, enquanto beijava seu irmão nas bochechas, no pescoço e onde podia.Simulando que não gostava do recebimento entusiasta de sua irmã, Jamie continuou mantendo-a suspensa, afastada dele.
- Se você tivesse sabido quando eu chegava, sem dúvida teria ido receber-me nas docas. Mesmo que a
chegada estivesse estipulada para as quatro da manhã.
- Mas é claro - concordou ela. Logo, com expressão preocupada, colocou-lhe uma mão na bochecha. - Perdeu peso.
- E você não cresceu nem um centímetro. Carrie sacudiu os ombros para que seu irmão a soltasse. Sabendo que estava de novo em casa são e salvo, todo seu interesse se concentrou no lindo cachorro. Assim que colocou os pés no chão voltou a deitar-se na cama e, logo que esteve entre os lençóis, o pequeno animal foi em busca de mimos.
Enquanto Carrie se encontrava ocupada com o cão, Jamie olhou em redor, observando as novidades incluídas da última vez que esteve em casa.
- De onde veio isto?












Série Saga Montgomery
1- O Leão Negro 
2- A Donzela
3- A Herdeira
4- O Corsário
5- A Duquesa e o Capitão
6- Eternidade
Veja o vídeo da série



6 de fevereiro de 2018

Às Portas de Numancia

154 a.C.
De Óstia em Roma para Numância na Celtibéria

De um mundo civilizado para um porão de um navio e desse para a Hispânia controlada pelos mais ferozes e temidos guerreiros.
Cassia Minor vê-se em território selvagem forçada a casar com Leukón de Sekaisa se quiser salvar a sua vida.
Inicialmente decidida a fugir de Numância, assim que tiver oportunidade, traindo quem a protegeu, Cassia dá por si dividida entre a fidelidade a Roma e os sentimentos que começam a desabrochar pelo bárbaro que a defendeu do aço e do fogo.
Como conseguirá lidar com a guerra iminente que opõe o seu pai a seu marido, a sua educação aos seus sentimentos e que ameaça destruir tudo aquilo que aprendeu a amar?

Capítulo Um

Más notícias. 
Não pretendia espiar, de maneira nenhuma. Mas ao passar pelo átrio escutei o meu nome e não pude evitar deter-me.
― Como vou dizer isso a Cassia?
Era a voz de minha mãe. Estava falando com o capitão Alexis, que tinha vindo visitar-nos aproveitando a sua tarde livre. Eu os tinha deixado a sós por educação.
― Com sensatez, querida ― respondeu o capitão ―. Ela já sabe que o seu pai é centurião, e um centurião não pode abandonar as suas tropas. Não agora que se trava outra guerra na Hispânia.
Aquelas palavras aceleraram o meu coração.
Outra guerra?
Papai ia travar outra guerra?Avancei com cautela. O átrio estava envolto nas sombras da tarde, mas o sol poente iluminava as águas do impluvium tingindo-as de ouro. Coloquei-me junto ao nosso pequeno altar doméstico, cujo fogo ardia dia e noite, e tentei ver a expressão de minha mãe através da cortina de fumaça.
Ela estava de pé, sustentando uma taça de vinho que mal tinha provado. O capitão Alexis, por seu lado, reclinou-se em um divã e mordiscava um figo com ar pensativo.
― Ele disse que estaria nas bodas de Cassia ― suspirou a minha mãe ―. Assegurou-me que, por essa altura, os lusitanos já estariam sob controle.
― E estão ― disse o capitão ―. Esse Viriato deu muitos problemas, mas os seus não podem fazer frente às legiões romanas.
― E então?
― Querida, a nova guerra não é contra os lusitanos, mas contra os celtiberos.
Minha mãe afogou uma exclamação de assombro. Eu também o fiz.
Meu pai nos tinha falado dos celtiberos: eram um conjunto de tribos selvagens que viviam na Hispânia Ulterior, a zona mais agreste da Península Ibérica. Eram tão ferozes que, a seu lado, os outros povos hispânicos pareciam gente civilizada.
Alexis confirmou os meus piores receios:― Se os rumores estiverem corretos, Roma nunca enfrentou um inimigo tão temível. ― Mas por que agora? ― Gemeu a minha mãe ―. Cassio nos disse que os celtiberos tinham feito um pacto com Roma!
― E fizeram ― assentiu o capitão ―. O cônsul Graco os convenceu. Mas parece que houve problemas com uma tribo… os Belos, se não me engano. Pelo visto, queriam murar a sua cidade, Segeda, e isso ia contra o acordo. Um de seus líderes foi convidado a explicar-se no Senado, mas saiu de lá aos gritos…
Um acesso de tosse interrompeu o seu discurso. Teve de tomar um sorvo de vinho antes de concluir:
― Um desastre, vá. Não se pode dialogar com aquela gente.
― E o que vai acontecer agora? ― inquiriu a minha mãe.
Eu me estava perguntando o mesmo. Encolhida no átrio, com os olhos fixos no altar, rezava aos nossos espíritos protetores, os lares, para que trouxessem o meu pai de volta o mais cedo possível.
Nunca tinha estado na Hispânia, mas tinha escutado todo o tipo de histórias no forum[3]. E nenhuma me agradava.
Queria que papai voltasse. Minhas bodas era o de menos: queria tê-lo em casa, a salvo.
O capitão Alexis suspirou.
― De momento, o Senado enviou o cônsul Nobilior com 30.000 homens para que impeçam a construção dessa maldita muralha. Além disso, pediu aos mercados que levem fornecimentos para o exército. O meu navio parte amanhã bem cedo para Ampúrias por esse motivo.
― Poderá levar uma mensagem a meu marido?
― Temo que não será possível, querida. Seu marido está na Hispânia Ulterior, e eu não penso sair da Citerior. De fato, pretendo não pôr um pé fora de Ampúrias. Logo que tenha descarregado as mercadorias no porto, voltarei para Óstia e esquecer-me-ei dessas horríveis terras ocidentais. Não dão mais que problemas.
Minha mãe ficou calada. Eu imaginava que tinha sentimentos contraditórios. Alexis, também.
― Lamento, de verdade ― acrescentou ele em voz baixa ―, mas eu não sou um guerreiro. Não quero que nenhum selvagem cabeludo me persiga até meu navio, compreende?
― Compreendo ― murmurou minha mãe. Sim. Eu também compreendia.
O sol já se tinha posto. A fumaça do altar subia em volutas para um céu púrpura.
“Boa sorte, papai”, desejei-lhe mentalmente.
O capitão Alexis se levantou. Não era um homem alto, mas a minha mãe lhe chegava apenas ao queixo. Eu tinha herdado dela a baixa estatura e a cara cheia de sardas; de meu pai, por outro lado, tinha recebido o cabelo liso e os olhos marrons.
O capitão estava acostumado a dizer que papai e eu não parecíamos romanos. Mamãe, por sua vez, era a viva imagem da deusa Juno: pequena, roliça, com os cachos castanhos e a boca pequena e amável.
Perguntei-me o que pensaria ela da guerra contra os celtiberos… e a perspectiva de não voltar a ver seu marido.
Obriguei-me a não pensar nisso.
― Se servir de consolo, querida ― Alexis estava dizendo a minha mãe ―, eu sim estarei nas bodas de Cassia. A viagem até à Hispânia apenas demora alguns dias; espero estar de volta brevemente.
― Obrigada, capitão. Isso me alivia.
Escutei a tosse de Alexis perigosamente perto do átrio e dei um passo atrás.
― A propósito…


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3 de fevereiro de 2018

O Despertar do Highlander

Série Cavaleiros das Highlandes
Como autora secreta de romances picantes, Lady Esme Hawkins vai a grandes distâncias para proteger a honra de sua família. 

E é por isso que ela se disfarça cuidadosamente antes de entrar em um bordel conhecido para fazer pesquisas. Mas quando Esme se vê cara a cara com um pensativo guarda-costas Highlands, ela não pode recusar facilmente um beijo inofensivo. . . 
Um beijo que inflama desejos arrancados das páginas de suas novelas. Agir sobre eles, no entanto, arriscaria revelar a identidade de Esme ― e o fato de que ela está noiva de outro homem. Como um Highland Knight que jurou proteger a coroa, Camden McLeod nunca esperara seguir seu cliente em um bordel ― nem poderia antecipar o encontro com uma garota brilhante e inocente com lábios e olhos exuberantes da cor do...

Capítulo Um

Camden McLeod estava de pé,atento, sua posição rígida com os braços retos nas laterais do corpo. Todos os seus sentidos estavam em alerta: seus olhos em foco, suas mãos estavam preparadas para recuperar sua pistola ou seu punhal em uma fração de segundo. 
Ele ouvia qualquer ruído suspeito e, ao mesmo tempo, tentava ignorar os sons de gemidos e calças emanando por trás da porta fechada às suas costas.
Seu olhar se moveu pela pequena antessala. Era coberta com uma decoração suntuosa, desdea porta pintada de branco e dourado que abria para o corredor, ao luxuoso tapete Aubusson que dominava o chão e o canapé coberto de veludo vermelho que atravessava o comprimento de uma parede.
Claro, Pinfield escolhia apenas o melhor. 
Os melhores cavalos, o melhor brandy, o melhor maldito bordel de toda Londres. Para não mencionar os homens mais habilidosos da Inglaterra para protegê-lo do perigo.
E era por isso que Cam estava nesse lugar, armado até os dentes e guardando a porta fechada de um dos muitos quartos elegantes no bordel de primeira classe da Sra. Trickelbank. 
Os Highland Knights, o grupo mercenário de elite do qual Cam era membro, guardavam o visconde Pinfield, que recebera tantas ameaças de morte que lhe foi concedida a proteção dos Knights 24 horas por dia.
Infelizmente, era a semana atribuída a Cam para serviço noturno.
― Oh, sim, meu senhor. Sim! Lá! ― O grito agudo da moça foi seguido pela queixa gemida do colchão o qual seus ocupantes batiam.
Cam colou um olhar insensível no rosto e cruzou os braços sobre o peito. Ele tentava ignorar os sons da cama, mas não era fácil. Concentrou-se na porta fechada em sua frente, em vez daquela atrás dele, e surgiram outros ruídos: sons silenciosos de passos rápidos no corredor e vozes femininas baixas, mas urgentes.
Cam enrijeceu quando os passos pararam, e as vozes ficaram mais altas.
― Mas quem...? ― uma das mulheres começou a dizer. A maçaneta girou. A mão de Cam foi para a pistola quando a porta se abriu. Duas mulheres ficaram no limiar. Ele conhecia uma delas ― Sra. Trickelbank, a senhora deste lugar. A outra usava um manto encapuzado e parou na sombra com a cabeça baixa, as mãos cruzadas firmemente em torno de um pequeno livro que ela segurava em sua cintura. Cam podia ver apenas o suficiente da forma do corpo para saber que ela era do sexo feminino, e da inclinação de sua bochecha para concluir que era jovem.
Provavelmente uma das raparigas da Sra. Trickelbank que sairia para atender a um cliente na noite. Talvez o livro fosse algum tipo de meios de manter os registros de suas conquistas.
Ele soltou sua arma e cravou os olhos na Sra. Trickelbank, que sabia muito bem que Lord Pinfield precisava de privacidade enquanto conduzia seu "negócio".
― Desculpe rapaz, ― disse a mulher mais velha rapidamente, ignorando seu olhar penetrante. Ela agarrou os ombros da mulher coberta e a empurrou para a antecâmara. A mulher tropeçou dentro, e teria caído de cabeça sobre Cam se ele não a pegasse agarrando-lhe os braços. Ela emitiu um som baixo, enquanto ele a segurava ao longo do braço, e olhou por cima do ombro para levantar uma sobrancelha para a Sra. Trickelbank.
Ela deu-lhe um sorriso de lábio franzido e puxou uma porção de seu cabelo grisalho de volta, colocando-o eficientemente em seu chignon enquanto dizia: ― Seja um doce e fique de olho na menina por um minuto, sim, Sr. McLeod? Eu tenho um problema com uma das meninas mais novas e Mountebank. Você sabe como ele é.
Cam deu um suspiro interno. Ai sim. Ele conhecia bem o Mountebank. A responsabilidade de Cam, Lord Pinfield, era insignificantemente despreocupado. Comum. Mountebank, por outro lado, era um bastardo perverso.
Ele deu um pequeno aceno de acordo. ― Continue, então, ― ele disse, sua voz rascante.
― É isso, meu caroçinho de ameixa, ― disse Pinfield alegremente de além da porta nas costas de Cam. ― Pule sobre mim. Pule! Pule!

Série Cavaleiros das Highlandes
0.5- Um Coração Escocês
1- Calor Escocês
2- O Despertar do Highlander

Dama de Fogo

Lady Eleanor de Nantes - A moça mais bela de sa época e três homens lutando por seu amor...

O Príncipe Henry, filho do Rei da Inglaterra. Apaixona-se a primeira vista pela a adolescente Eleanor. Imediatamente deseja casar-se com ela. Como possível herdeiro ao trono, ele deve fazer um matrimônio que traga alianças estratégicas e políticas. 
Sendo bonito e sedutor pode ter a qualquer mulher em sua cama e por que não tomar Eleanor como amante se não pode tê-la como esposa...Seu meio-irmão Roger. Seu único amigo e companheiro.
Desprezado pela família e os nobres por ser bastardo. Sempre amou secretamente sua irmã Eleanor e seu amor e fidelidade é tanto que mesmo sendo adolescente fará um juramento ante Deus, de converter-se no defensor e cavaleiro de Eleanor pelo resto de sua vida. Roger guarda um segredo que pode transformar a vida de todos e convertê-lo em um poderoso Lorde.
Só tomará Eleanor se ela vier a ele por sua própria vontade. Lorde Robert do Besleme, um bonito cavaleiro de cabelos escuros e penetrantes olhos verdes. Tem a fama de ser o homem mais temido de toda a Inglaterra e Normandia. Qualquer pessoa faz o sinal da cruz antes de pronunciar seu nome.
O plano de Robert é claro: terá Eleanor de qualquer modo e a qualquer preço. Daria tudo o que tem para sentir-se amado pela bela Eleanor.

Capítulo Um

Maio, 1085

Um ar espectador reinava no pequeno pátio cercado por altas muralhas em Nantes. Herleva, a babá das três filhas do Conde Gilbert, travava uma batalha perdida para manter às jovenzinhas ocupadas, enquanto os sons e os aromas das preparações festivas competiam pela atenção delas. 
Em algum lugar no povoado perto do castelo, os carpinteiros martelavam madeiras para armarem cabines e penduravam alegres bandeirolas, enquanto os cozinheiros se ocupavam de assar carne e os padeiros mantinham os fornos acesos dia e noite para prepararem bastante pão e tortas para nobres e camponeses. De vez em quando, o ruído de cavaleiros chegando com seus acompanhantes se ouviam nas ruas estreitas de pedra. 
A maioria procuraria alojamento dentro do povoado, mas alguns mais favorecidos da nobreza desfrutariam da hospitalidade de Gilbert. Herleva observou como a menina primogênita, Eleanor de doze anos de idade, lutava reticentemente com seu trabalho de costura. 
A menina segurou a toalha do altar que ela tinha estado trabalhando, inspecionou-o com desgosto, e lentamente começou a descosturar os pontos que fazia pouco tempo tinha costurado. 
Não, a menina nunca seria notável por sua habilidade com a agulha e fio — ou com qualquer outra tarefa de dona-de-casa. Bem, nenhum cavaleiro se preocuparia com isso porque a menina era muito reconhecida por sua beleza. 
A diferença de outras moças da idade dela, Eleanor de Nantes carecia dessa estupidez tão frequentemente associada com a aproximação da feminilidade. 
Com compridos cabelos escuros que caíam em uma cortina grossa até sua cintura minúscula, uma pele lisa e clara, com um rubor saudável, e um par de olhos marrom claro bordeados com pestanas negras e grossas, que em conjunto apresentava uma formosa visão. 
Aos doze, ela era pequena e delicadamente bem —feita, mas seus jovens seios já se esboçavam no decote do vestido vermelho. Rumorejava-se que o Conde Gilbert pretendia arrumar seu matrimônio, e os criados de Nantes esperavam que sua Lady fosse a algum lugar onde seria mais apreciada. 
Um insulto moderado escapou dos lábios da menina enquanto jogava no piso seu trabalho, cheia de frustração. Abruptamente ela se levantou e começou a caminhar impacientemente de um lado para o outro com passos longos.
 — Minha Lady! 


Série Fogo
1- Dama de Fogo

27 de janeiro de 2018

O Renascer de Gabrielle

Gabrielle carrega um segredo.

Terríveis acontecimentos a obrigam a deixar seu lar natal em Edimburgo e mudar-se a Londres e viver com seus tios. 
Mas Gabrielle já não é a mesma porque alguém em quem confiava a deixou reduzida a cinzas.
William Clarkson, marquês de Harlock, tem muito claro que não deseja casar-se nunca.
Um desengano amoroso terminou com seus desejos de ligar-se a alguém e formar uma família. 
Assim, quando Gabrielle aparece em sua vida com sua atitude fria e irônica, não entende por que não pode deixar de pensar nela. Mas chegar ao coração de Gabrielle será uma tarefa muito difícil. Será capaz de renascer de suas cinzas?

Capítulo Um

Londres, março de 1833
Gabrielle despertou sobressaltada e com a respiração ofegante, como se tivesse estado correndo durante quilômetros sem parar. Desorientada, olhou a seu redor até que reconheceu o lugar no que se encontrava: seu novo aposento em Londres. Com lentidão, apartou as mechas pegajosas da testa, banhadas pelo suor que lhe cobria todo o corpo. Tinha sido um pesadelo. Um de tantos outros.
Sempre o mesmo.
Acendeu uma vela para poder vislumbrar melhor o que havia a seu redor, pois as sombras que invadiam a estadia a punham mais nervosa. O amplo aposento estava como sempre, limpo e ordenado, como gostava. Observou o piano que presidia o lugar e pensou em tocar um pouco, mas rechaçou em seguida a idéia: não queria despertar ninguém. Teria que tentar acalmar-se de outra forma.
Com o peito ainda subindo e baixando com rapidez sob o tecido da fina camisola, levantou-se e se aproximou da enorme janela que ocupava grande parte da parede esquerda.
 Sentia o chão frio sob os pés, mas isso a ajudou a limpar e a eliminar os restos do pesadelo. Tinha sido tão real… Como era quase todas as noites. Às vezes despertava gritando sobressaltada e outras simplesmente ficava paralisada pelo medo, como se estivesse de novo naquela sala, completamente indefesa e à mercê de seu atacante. Estava chegando a um ponto em que, se pudesse fazê-lo, preferiria não voltar a dormir nunca mais.
Abriu a janela, que emitiu um ligeiro clique, e saiu ao enorme terraço que dava ao jardim da propriedade. Tinham-lhe dado aquele quarto porque seus tios pensaram que gostaria de observar a vista. E tinham razão, pois as árvores e arbustos recordavam aos que tinha em sua casa, em Edimburgo. Além disso, as noites frias se tornavam mais suportáveis, anunciando a chegada da primavera. Aquela era uma de suas épocas favoritas do ano desde que era menina.
Recordou como ia com seu irmão a passear pelos jardins da casa em maio quando era menina, enquanto as abelhas zumbiam perto dos canteiros de flores que, conforme lhe contaram, sua mãe tanto adorava.
Pedia-lhe para jogar e ele se fazia de surdo até que ela se decepcionava porque não fazia caso. Então, ele a agarrava pela cintura, surpreendendo-a, e a jogava ao ombro entre as risadas de ambos.
Sorriu involuntariamente quando aquela lembrança a envolveu como uma manta protetora, afastando todo mal. Perder Xander foi terrivelmente o pior. Ele era o único que a entendia, o único que tinha acreditado quando tudo passou, além de Helena.
Doía pensar em ambos, tão longe dalí: seu irmão e sua melhor amiga. Desejou que estivessem em Londres com ela. Desejou que a abraçassem e lhe dissessem que tudo ficaria bem, que tudo se arrumaria.
Respirou fundo, mais serena. Olhou para a rua, algo mais à frente do jardim, e observou a neblina que formava redemoinhos no exterior.
 Certamente, de dia a vista dalí era fantástica. Gostava de observar a caminhada das pessoas que se dirigiam a realizar seus afazeres diários. Mas agora, noite fechada, não se podia distinguir nada exceto a cinzenta bruma e isso a deprimia. Embora também chovesse frequentemente, na Escócia tudo era mais mágico.
As verdes Highlands eram uma paisagem digna de observar, embora só tinha estado apenas uma vez. De repente, umas imagens voltaram para sua mente e pôs-se a tremer de novo. Zangou-se consigo mesma por assustar-se tanto; ali não podia fazer-lhe dano. Esteve se convencendo disso até que a respiração se normalizou uma vez mais. Caso seguisse assim, voltaria-se louca.
Já tinham se passado vários meses desde aquilo, mas tudo estava muito recente ainda. Sempre o estaria. Estava segura de que jamais conseguiria desprender-se da sensação de desamparo e impotência que a assaltou aquela noite.
Tinham-lhe destroçado a vida e só ela pagava o preço. Felizmente, apenas seu irmão e sua amiga, junto com o pai desta, tinham entrado na sala para ajudá-la e ambas as famílias puderam ocultar tudo.
Se o resto da sociedade soubesse, acabaria desonrada. Porque, embora fosse frustrante, Gabrielle sabia que ninguém acreditaria que a tinha forçado.
Todo mundo pensaria que ela se ofereceu, porque seria sua palavra contra a dele. Por desgraça, as coisas eram sempre assim.
Suspirou derrotada e voltou a entrar em seu quarto. Sentou-se frente a penteadeira e se olhou no espelho. Cabelo comprido e negro, olhos verdes. Seu reflexo era familiar, mas ao mesmo tempo não se reconhecia. Tinha mudado por dentro de forma irreversível.
Desgostosa consigo mesma, tombou-se na cama e olhou ao teto enquanto tentava deixar a mente em branco. Levava ali mais de cinco meses, mas não conseguia acostumar-se a seu novo lar, apesar de não ter saído de casa desde de que alí chegara. Não se sentia com forças, embora as paredes começavam a cair sobre sí. Por sorte, os meses prévios à temporada eram de poucos compromissos sociais e sua tia a tinha dispensado de todos. Em realidade, não sabia se os londrinos conheciam sua existência e tampouco lhe importava. Queria fazer-se pequenina e desaparecer. 

24 de janeiro de 2018

Cartas para uma falsa Dama

Ainda recém-casado, o conde Tristan deixou sua esposa para defender o ducado da Bretanha.

Dois anos se passaram desde a última vez que Francesca vira o belo rosto do marido. 
Durante todo esse tempo, ela escreveu incessantemente para Tristan, mas não recebeu resposta. 
Nem mesmo após descobrir que não era a filha verdadeira do conde Myrrdin. Aflita, ela esperava receber o pedido de anulação do casamento a qualquer momento. 
Porém, quando Tristan retorna, Francesca percebe que não é a única assombrada por segredos do passado.

Capítulo Um

Primeiro de maio, 1176 – cidade mercantil de Provins, no condado de Champanhe
Tristan atravessou rapidamente a cavalo pela Cidade Baixa, seu escudeiro, Bastian, a seu lado. Haviam levado muitos dias para chegar à mansão dele em Champanhe, onde esperava encontrar Francesca.
Não foi o que aconteceu. Ao chegar a Paimpont, seu comissário, Sir Ernis, dissera que Francesca fora a um baile no palácio do conde Henry. E justamente um baile de máscaras! No primeiro dia de maio. As coisas não podiam ser piores.
Ela fazia ideia de como aquele baile podia se tornar vulgar? De como podia se tornar obsceno? Tristan pensara que Francesca fosse inocente. Superprotegida. Era possível que ela tivesse mudado. Era possível que tivesse adquirido o hábito de frequentar tais eventos.
Com um suspiro, Tristan pedira água quente e cavalos descansados. Em seguida, exaustos, ele e Bastian subiram mais uma vez nas selas.
Tristan tinha notícias urgentes para Francesca, notícias terríveis que a deixariam perplexa. O conde Myrrdin de Fontaine, o homem que ela pensara ser seu pai, estava no leito de morte. O conde queria ver Francesca antes de morrer, e Tristan fora incumbido de levá-la.
A cabeça de Tristan latejava depois de ter passado tanto tempo na estrada. Seus olhos ardiam e tudo dentro dele estava mais tenso do que um alaúde exageradamente tensionado. 
Contar a Francesca a respeito da doença de conde Myrrdin certamente seria um desafio. Ele queria acabar com isso de uma vez. Com certeza, a notícia a deixaria mal. Mesmo assim, quanto antes Francesca soubesse que o homem que ela considerara seu pai estava em seu leito de morte, melhor. Ela precisava se preparar para a longa cavalgada de volta à Bretanha.
Ficaria ela ainda mais triste quando soubesse que teria de fazer essa jornada com o marido que ela não via fazia quase dois anos? Impaciente consigo mesmo, Tristan conteve seus pensamentos. Desde que se separara de Francesca, aprendera, a muito custo, que pensar nela criava um caos em suas emoções. Ela afetava seu julgamento, e Tristan não podia permitir isso. Era um conde e possuía responsabilidades. Emoções eram perigosas, emoções destruíam vidas. Permitir que uma emoção forte se arraigasse significava mandar às favas o bom julgamento.
Ele estava ali para levar Francesca até o conde Myrrdin.
Estava ali para pedir uma anulação. Uma esposa que não se dera o trabalho de responder nenhuma de suas cartas, uma esposa que não se dera o trabalho de replicar quando ele a convidara para visitar des Iles não era uma esposa que servisse para ele.
Tristan olhou de relance para seu escudeiro. Bastian era jovem e, sem dúvida, estava esgotado. Os territórios de Tristan no ducado da Bretanha estavam a muitos quilômetros de distância. Eles haviam cruzado diversos condados para chegar a Champanhe.
— Aguentando bem, rapaz?
— Sim, milorde.
— Você não precisava ter vindo comigo esta noite. Podia ter ficado na mansão. Um dos cavalariços podia ter me acompanhado.
Bastian ficou tenso.
— Sou seu escudeiro, lorde Tristan. É meu dever acompanhá-lo.
Na Cidade Baixa, a praça do mercado estava sem nenhuma tenda, embora uma certa atmosfera festiva garantisse que as tavernas prosperassem. De fato, toda a população parecia ter saído das estreitas casas de madeira para as ruas. Homens perambulavam por ali com canecas de cerveja na mão; garotas haviam trançado flores em seus cabelos. A atmosfera estava relaxada. Festiva. E tudo em honra do antigo festival de Beltane. Tristan sabia o que isso significava. Poderia apostar que todos os homens de sangue quente de Provins tinham uma única coisa em mente.
Ele contraiu os lábios. Tinham lhe dito que Francesca fora a um baile na companhia apenas de um cavalariço e de sua aia. Se as coisas fugissem do controle, ela estaria em segurança? 
Sentiu a cabeça pesar enquanto eles trotavam ao entardecer, rumando colina acima na direção do palácio. Andorinhões piavam no céu, um agradável sinal de que o verão estava chegando, um sinal que devia ter deixado Tristan com um humor melhor.

20 de janeiro de 2018

A Duquesa e o Capitão

Série Saga Montgomery
O capitão Ring Montgomery, um cavaleiro elegante e habilidoso, um atirador preciso, especialista em territórios ocidentais e popular entre homens e mulheres, recebeu uma tarefa única: escoltar uma cantora de ópera - Madelyn Worth - através do Colorado.

No clima tenso da guerra civil que estava se preparando, duas vontades poderosas se enfrentariam: a de Montgomery, ansioso por assustar a jovem para que ela abandonasse seu projeto de cantar para brutos mineradores e Maddie, que não queria a proteção de Ring, mas que teve que cumprir sua missão, sem confiar à verdade de tudo, para ele.

Capítulo Um

Colorado1859.
O coronel Harrison leu a carta pela segunda vez, se reclinou para trás na cadeira e sorriu. Um presente caído do céu, pensou. Isso era o único que podia dizer da carta; um presente caído do céu.
Só para comprovar que realmente dizia o que ele acreditava, voltou a lê-la. 
O general Yovington emitira ordens de Washington, D.C. — de que o tenente L.K. Surrey tinha que deixar seu posto na Companhia J. de Segundos Dragões, para fazer uma missão especial. Mas como o tenente Surrey tinha morrido na semana anterior, o coronel Harrison teria que escolher outro oficial para cumprir a missão em seu lugar.
Desenhou-se um grande sorriso no rosto do coronel Harrison. Escolheria o capitão C. H. Montgomery para ocupar o lugar do tenente Surrey. Os serviços do tenente, definitivamente substituídos pelo capitão Montgomery, tinham sido "solicitados" para dar escolta a uma cantora de ópera estrangeira através dos campos auríferos do território do Colorado. 
Tinha que permanecer com ela e com sua pequena banda de músicos e servos todo o tempo que a dama o necessite a seu lado. Tinha que protegê-la de qualquer perigo que pudesse espreitá-la no trajeto e fazer tudo o que estivesse a seu alcance para que sua viagem fosse prazerosa.
O coronel Harrison deixou a carta sobre a escrivaninha com tanto cuidado como se se tratasse de uma valiosa relíquia, e sorriu tão amplamente que seu rosto esteve a ponto de explodir. 
Donzela a serviço de uma dama, pensou. O presunçoso capitão Montgomery ia receber a ordem de converter-se em uma simples donzela a serviço de uma dama. Mas, o que era mais importante ainda, ordenava ao capitão Montgomery que partisse do Forte Breck. 
O coronel Harrison respirou fundo várias vezes e considerou a possibilidade que se apresentava dele mandar em seu próprio forte, e não ter que enfrentar a perfeição, e a insolente sabedoria do capitão Montgomery. Os homens já não olhariam para seu capitão para que ele confirmasse todas as ordens, e lhes desse permissão para fazer o que o coronel pedia.
O coronel Harrison rememorou sua chegada ao Forte Breck há um ano. Seu predecessor, o coronel Collins, tinha sido um velho tolo, ocioso e bêbado. 
A única preocupação de Collins tinha sido sobreviver até que pudesse se retirar do serviço ativo, sair do território índio e retornar a Virginia onde viveria civilizadamente. 
Estava muito contente de passar todas suas responsabilidades ao segundo em comando, o capitão Montgomery. E por que não? Teria que ver para acreditar na folha de serviços de Montgomery. Tinha ingressado no exército aos dezoito anos e durante os oito anos seguintes, vinha subindo de posto até alcançar a patente que ostentava nesse momento. 
Tinha começado sua carreira como soldado raso e, depois de um extraordinário ato de arrojo e valentia no campo de batalha, tinha recebido o grau de oficial. Em três anos tinha passado de subtenente a capitão, e no passo que ia superaria em patente ao próprio coronel Harrison em poucos anos.
Isto não queria dizer que o homem não merecesse tudo o que tinha ganhado no exército. É mais, segundo o coronel, o capitão Montgomery era perfeito. Sob fogo inimigo era frio e jamais perdia a cabeça. Era generoso, justo e pormenorizado com os soldados, e por esta razão estavam virtualmente convencidos de que ele mandava no forte. 
Os oficiais recorriam a ele para solucionar seus problemas; as esposas dos oficiais lhe adulavam e pediam conselho sobre os acontecimentos sociais. O capitão Montgomery não bebia, nem frequentava os prostíbulos fora do forte; nunca ninguém o tinha visto zangado, e era capaz de fazer qualquer coisa. Podia cavalgar como um demônio e, enquanto ia rapidamente deitado sobre o cavalo, disparava e acertava ao olho de um peru a cem metros de distância. 
Conhecia a linguagem por sinais dos índios e falava algumas línguas indígenas. Diabos, se até os índios lhe tinham afeto, pois diziam que era um homem que podiam respeitar e em quem podiam confiar. Indubitavelmente, o capitão Montgomery morreria antes de romper sua palavra.
Todo mundo parecia apreciar, honrar, respeitar e até reverenciar o capitão Montgomery. Todos, salvo o coronel Harrison. 



Série Saga Montgomery
1- O Leão Negro 
2- A Donzela
3- A Herdeira
4- O Corsário
5- A Duquesa e o Capitão
6- Eternidade
Veja o vídeo da série
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